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Cannabis: overview de revisões sistemáticas Cochrane

Cannabis: overview de revisões sistemáticas Cochrane

CANNABIS: OVERVIEW DE REVISÕES SISTEMÁTICAS COCHRANE
O QUE AS REVISÕES SISTEMÁTICAS COCHRANE DIZEM SOBRE AS INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS COM CANNABIS? SÍNTESE DE EVIDÊNCIAS


RESUMO
Contextualização e objetivos: A Cannabis sativa é uma planta popularmente conhecida como maconha e que há alguns anos é alvo de polêmica, dado seu potencial medicinal e também os efeitos entorpecentes que a qualificam como droga ilícita. O presente estudo teve como objetivo avaliar as revisões sistemáticas desenvolvidas pela Cochrane, no que concerne à eficácia dos princípios ativos da cannabis para tratamento de doenças.

Metodologia: Trata-se de overview de revisões sistemáticas Cochrane. Procedeu-se à busca por revisões sistemáticas na Cochrane Library database. Foram utilizados os termos MeSH Cannabis e Cannabidiol. Os critérios de inclusão envolveram pacientes tratados com derivados de cannabis para qualquer doença.

Resultados: A estratégia de busca recuperou 7 revisões sistemáticas Cochrane, relacionadas ao tratamento de colite ulcerativa, doença de Chron, epilepsia, dor crônica neuropática, morbimortalidade associada ao HIV, dor em artrite reumatoide e ataxia em esclerose múltipla, totalizando 2561 pacientes avaliados.

Discussão: há carência de evidência até o momento que suscite afirmar a efetividade de cannabis no tratamento das condições clínicas avaliadas. Para a dor crônica neuropática, a evidência de melhora é baixa. Os estudos realizados até o momento, em nível baixo de evidência, não demonstraram efeitos adversos graves.

Conclusão: Não há evidências de efetividade dos princípios ativos da cannabis em estudos realizados até o momento e compilados em revisões sistemáticas Cochrane.

Palavras-chave:
overview, revisão sistemática, terapêutica, cannabis, cannabidiol.

CONTEXTUALIZAÇÃO
A planta Cannabis sativa, comumente conhecida como maconha, é relacionada a mais de 500 compostos e novos componentes continuam a ser descobertos (Radwan 2009). Aqueles que são únicos para a planta cannabis são chamados de canabinóides. O principal componente ativo da maconha é o canabinóide 19 -tetra-hidrocanabinol (THC); O dronabinol é um isômero puro de THC, que é o principal isômero da cannabis (Mechoulam 1970).

Após a identificação do ∆9 -tetraidrocanabinol (∆9-THC) na década de 60 e com a posterior clonagem do receptor canabinoide CB1 e consequente descoberta do sistema endocanabinoide na década de 90, um volume crescente de pesquisas tem emergido focalizando o papel deste sistema em transtornos psiquiátricos, tais como esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar (TAB), depressão maior e ansiedade, entre outros1-4.

A maconha é a droga ilícita mais comum no mundo. A procura por tratamento pelos consumidores de maconha tem aumentado na maioria das regiões do mundo. Atualmente não há medicamentos específicos para o tratamento do consumo de maconha.

O canabidiol é outro canabinóide que tem algumas das propriedades do THC, incluindo o possível efeito de prevenir convulsões (Howlett 2004).

O canabidiol é outro canabinóide que pode ser eficaz na redução de convulsões (Mechoulom 2007). Há evidências bastante extensas na literatura animal que o THC possui propriedades anti-convulsivas fracas (Razdan 1983). O THC se liga ao receptor CB-1, encontrado no cérebro, bem como na periferia (Matsuda 1990). Outro receptor, o CB-2, é encontrado periférico e funciona no sistema imunológico (Felder 1998; Munro 1993). A maconha é usada desde o século XIX em pacientes com epilepsia. Foi descrito um paciente daquela época cujas crises parou quando a maconha foi dada e retornou quando o uso foi interrompido (Gowers 1881). Houve outros relatos de sua eficácia em humanos.

Esta revisão avaliará a ingestão de maconha, THC ou canabinóides sintéticos (que devem incluir canabinol, mas podem incluir outros agentes como o canabidiol), por via oral ou por inalação, para o tratamento das doenças relatadas nas revisões coletadas.

OBJETIVOS
O presente estudo tem como objetivo sumarizar as evidências das revisões sistemáticas da Cochrane, referentes à eficácia dos princípios ativos da cannabis para intervenções clínicas em humanos.

METODOLOGIA
Desenho de Estudo
Trata-se de overview de revisões sistemáticas publicadas na Cochrane Library.

Critérios de inclusão

Tipos de participantes
Foram incluídas todas as revisões sistemáticas que envolveram ensaios clínicos randomizados com intervenções de cannabis para tratamento de qualquer doença ou condição em humanos e que constam na Cochrane Database.

Tipos de intervenções

As intervenções consideradas para esta síntese de evidências foram: procedimentos terapêuticos envolvendo cannabis e seus derivados em comparação com placebo, ou outro medicamento.

Tipos de resultados

Foram considerados quaisquer resultados (melhora clínica, melhora na qualidade de vida, eventos adversos, dependência à droga etc.) encontrados nos estudos.

Processo de busca e seleção de estudos

A busca por revisões sistemáticas foi realizada em 7 de outubro de 2019, utilizando a terminologia oficial do MeSH - Medical Subject Headings, na Cochrane Library (via Wiley). A estratégia de busca pode ser visualizada na Tabela 1. As análises dos estudos, bem como a extração dos dados foram realizadas, respeitando os critérios de inclusão descritos.

Todas as sete revisões encontradas foram analisadas a partir do texto completo.
A extração dos dados foi realizada a partir dos arquivos originais das revisões sistemáticas.

Utilizou-se uma folha de extração pré-determinada contendo os seguintes pontos principais: ano de publicação, nome dos autores e estudo periódico, número de estudos primários, tipos e número de participantes, intervenções e resultados, análise de viés e suas justificativas, detalhes de grupos de intervenção, duração e parâmetros, período de acompanhamento, e, quando presentes, valores estatísticos em metanálise / formato de risco relativo / diferenças entre médias padronizadas ou não padronizadas / intervalo de confiança.

As análises quantitativas utilizadas das variáveis contínuas foram agrupadas em Diferença Média (MD) ou Diferença Média Padronizada (SMD) com os Intervalos de Confiança de 95% (IC).

Tabela 1: Estratégia de busca.

#1       MeSH descriptor: [Cannabidiol] this term only  106

ID        Search           Hits

#2       MeSH descriptor: [Cannabis] this term only      293

#3       #1 OR #2       381

#3       #1 OR #2       381


RESULTADOS
A estratégia de busca recuperou em outubro de 2019 um total de 381 citações na Cochrane, sendo 374 ensaios clínicos e 7 revisões sistemáticas. Todas as revisões sistemáticas foram incluídas nesse estudo.

As revisões são apresentadas sequencialmente, de acordo com o escopo do objetivo.

Dor Crônica
O estudo de Mücke et al (2018) foi realizado na Alemanha e teve como objetivo avaliar a eficácia, tolerabilidade e segurança dos medicamentos à base de cannabis, comparado com placebo ou drogas convencionais, para dor crônica neuropática em adultos. 

Foram incluídos nessa revisão sistemática 16 estudos primários, totalizando 1750 participantes.

A intervenção envolveu a utilização de spray oromucoso com uma combinação derivada de plantas de tetra-hidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD) – 10 estudos, Canabinóide sintético (spray) que imita THC (nabilona) – 2 estudos, Cannabis de ervas inaladas (2 estudos) e THC derivado de plantas (dronabinol) – 2 estudos.

Os controles foram estabelecidos com placebo (15 estudos) e do analgésico di-hidrocodeína (1 estudo). A duração do tratamento variou de 2 a 26 semanas.

Os desfechos primários de análise envolveram a resposta clínica ao tratamento, o alívio da dor relatado pelo participante de 50% ou mais, a impressão global de mudança (melhora) do paciente e a ocorrência de eventos adversos, incluindo graves, tolerabilidade e segurança.

Como desfechos secundários de análise, foram avaliados o alívio da intensidade média da dor, a melhora na qualidade de vida, alterações do sono, ocorrência de fadiga e sofrimento psicológico.

Como resultados, houve melhora de 50% ou mais do alívio da dor em comparação com o placebo (21% versus 17%), RD= 0,05 (IC 95% 0,00 a 0,09); NNTB 20 (95 % IC 11 a 100); 1001 participantes: 8 estudos - Nível de evidência: baixo.

Relativo à impressão global de mudança do paciente com tratamento com cannabis, (26% versus 21%; RD 0,09 (IC 95% 0,01 a 0,17); NNTB 11 (IC 95% 6 a 100); 1092 participantes, 6 estudos) - Nível de evidência: baixo.

No que concerne à ocorrência de eventos adversos, mais participantes se retiraram dos estudos devido a eventos adversos com medicamentos à base de cannabis (10% dos participantes) que com placebo (5% dos participantes) - (RD 0,04 (IC 95% 0,02 a 0,07); NNTH 25 (IC 95% 16 a 50); 1848 participantes, 13 estudos - Nível de evidência: moderado.

Não houve evidências suficientes para determinar se os medicamentos à base de cannabis aumentam a frequência de eventos adversos graves em comparação com o placebo (RD 0,01 (IC95% -0,01 a 0,03); 1876 participantes, 13 estudos - Nível de evidência: moderado.

Os medicamentos à base de cannabis provavelmente aumentam o número de pessoas que alcançam alívio da dor de 30% ou mais em comparação com o placebo (39% versus 33%; RD 0,09 (IC 95% 0,03 a 0,15); NNTB 11 (IC 95% 7 a 33); 1586 participantes, 10 estudos - Nível de evidência: moderado.

Entretanto, os medicamentos à base de cannabis podem aumentar os eventos adversos do sistema nervoso em comparação com o placebo (61% versus 29%; RD 0,38 (IC 95% 0,18 a 0,58); NNTH 3 (IC 95% 2 a 6); 1304 participantes, nove estudos - Nível de evidência: baixo.

Transtornos psiquiátricos ocorreram em 17% dos participantes que usavam medicamentos à base de cannabis e em 5% que usaram placebo (RD 0,10 (IC95% 0,06 a 0,15); NNTH 10 (IC95% 7 a 16); 1314 participantes, 9 estudos, Não há informações sobre riscos do uso em longo prazo nos estudos analisados - Nível de evidência: baixo.

Os autores concluíram que os benefícios potenciais dos medicamentos à base de cannabis na dor crônica neuropática podem ser maiores que eventuais danos. Entretanto, a qualidade das evidências no tocante ao alívio da dor reflete a exclusão de participantes com histórico de abuso de substâncias e outras comorbidades significativas, juntamente com o pequeno tamanho da amostra avaliado.

Colite Ulcerativa
O estudo de Kafil et al (2019) foi realizado no Canadá e teve por objetivo avaliar a eficácia e a segurança de cannabis e canabidióides no tratamento da colite ulcerativa.

Foram incluídos 2 estudos primários que envolveram 92 participantes.

O primeiro estudo comparou o uso de cannabidiol com placebo (n=60), durante 10 semanas. Um grupo de pacientes foi tratado com cápsulas com 4,7% de THC (50 mg, 2 vezes ao dia, aumentando até 250 mg, se tolerado); outro grupo fez uso de placebo. Os participantes apresentavam colite ulcerativa de grau leve a moderado.

O segundo estudo envolveu 32 pacientes. O grupo tratado usou cannabis e o controle placebo. O tratamento teve duração de 8 semanas.

Tempo de tratamento: 8 semanas

A intervenção relacionou-se a tratamento com 2 cigarros de cannabis por dia, contendo 0,5 g de cannabis (23 mg de THC por dia) versus cigarros com placebo, em pacientes que não responderam ao tratamento médico convencional para colite ulcerativa.

Como desfecho primário de análise teve-se a remissão da doença e os desfechos secundários relacionaram-se a resposta clínica ao tratamento, remissão endoscópica, remissão histológica, melhora na qualidade de vida, mensuração de Proteína C Reativa (PCR) e calprotectina, melhora dos sintomas e ocorrência de efeitos adversos.

Como resultados, no primeiro estudo, ocorreu remissão clínica em 24% (7/29) no grupo tratado e 26% (8/31) no grupo placebo (RR 0.94, 95% CI 0.39 to 2.25) - Nível de evidência: baixo.

Para a resposta clínica ao tratamento, 31% (9/29) no grupo tratado e 22% (7/31) no grupo placebo - (RR 1.37, 95% CI 0.59 to 3.21) - Nível de evidência: baixo.

Os níveis de PCR apresentaram média de 9.428 mg/L no grupo tratando e 7.638 mg/L no grupo controle (MD 1.79, 95% CI -5.67 to 9.25) - Nível de evidência: moderado.

No que tange a melhora na qualidade de vida, a análise pela escala IBDQ demonstrou que pode haver melhora na qualidade de vida (MD 17.4, 95% CI -3.45 to 38.25) - Nível de evidência: moderado.

Houve ocorrência de eventos adversos, mas em geral leves a moderados; todavia mais frequentes no grupo tratado: 100% (29/29) contra 77% (24/31) no controle (RR 1.28, 95% CI 1.05 to 1.56) - Nível de evidência: moderado.

No segundo estudo, os níveis de PCR foram similares entre os grupos após o tratamento (MD -0.30, 95% CI -1.35 to 0.75) - Nível de evidência: baixo.

Os níveis de calprotectina fecal no grupo tratado foram 115 mg/dl e 229 mg/dl no grupo controle (MD -114.00, 95% CI -246.01 to 18.01) - Nível de evidência: baixo.

Não foram observados efeitos adversos sérios e o autor não descreveu resultados para remissão clínica, resposta clínica, qualidade de vida e descrição minuciosa de eventos adversos.

Concluiu-se que a eficácia de cannabis e canabidióides para tratamento da colite ulcerativa é incerta. Não há evidência que seu uso impeça a progressão ou promova e remissão da doença e sugere-se a realização de novos estudos com uso de diferentes dosagens e vias de administração e acompanhamento de longo prazo para constatação em definitivo.

Doença de Chron
O estudo de Kafil et al (2019) foi realizado no Canadá e objetivou avaliar a eficácia e a segurança de cannabis e canabidióides para indução e manutenção da remissão da Doença de Chron.

Foram incluídos 3 ensaios clínicos randomizados, totalizando 93 participantes.

O primeiro estudo teve como intervenção o uso de cigarros de cannabis contendo 115 mg de THC comparado com cigarros com placebo (n=21), com duração de tratamento de 8 semanas.

O segundo estudo comparou o uso de óleo de cannabis (5% de canabidiol) ao óleo com placebo (n=22). A duração do tratamento foi de 8 semanas.

Outro estudo envolveu o tratamento de um grupo de pacientes com óleo de cannabis (15% de canabidiol e 4% de THC) e outro grupo tratado com óleo com placebo (n=50). A duração da intervenção foi 8 semanas.

O desfecho primário de análise foi a remissão e melhora clínica da doença.

Os desfechos secundários envolveram a resposta clínica ao tratamento, a remissão endoscópica, a remissão histológica, a melhora na qualidade de vida, a mensuração de Proteína C Reativa (PCR) e calprotectina, a melhora dos sintomas e a ocorrência de efeitos adversos, incluindo indução de dependência.

No primeiro estudo, no que tange a remissão clínica da doença, 45% (5/11) do grupo cannabis alcançaram êxito em comparação com 10% (1/10) do grupo placebo (RR 4,55, IC 95% 0,63 a 32,56) - Nível de evidência: muito baixo.

Para a taxa de resposta clínica ao tratamento, 90% (10/11) do grupo cannabis alcançou uma resposta clínica em comparação com 40% (4/10) do grupo placebo (RR 2,27, IC 95% 1,04 a 4,97) - Nível de evidência: muito baixo

Os eventos adversos em geral foram de natureza leve, mais frequentes no grupo tratado (RR 4,09, IC 95% 1,15 a 14,57) - Nível de evidência: muito baixo.

Não foram relatados efeitos adversos graves.

No segundo estudo incluído, a houve remissão clínica em 40% (4/10) dos participantes do grupo tratado e 33% (3/9) do grupo controle (RR 1,20, IC 95% 0,36 a 3,97) - Nível de evidência: muito baixo

Quanto aos eventos adversos, 10% (1/10) dos participantes do grupo de óleo de cannabis tiveram um evento adverso grave em comparação com 11% (1/9) dos participantes do placebo (RR 0,90, IC 95% 0,07 a 12,38) - Nível de evidência: muito baixo

Não houve abordagem do estudo para resposta clínica, PCR, qualidade de vida ou abstinência como evento adverso.

O terceiro estudo inclúido destacou que o índice de remissão da doença teve pontuação média de 118,6 no grupo tratado em comparação com 212,6 no grupo controle (MD -94,00, IC 95% -148,86 a -39,14) - Nível de evidência: baixo.

Relativo à qualidade de vida, o escore médio foi de 96,3 no grupo tratado e de 79,9 no grupo placebo (MD 16,40, IC 95% 5,72 a 27,08) - Nível de evidência: baixo.

O estudo não relatou remissão clínica, resposta clínica, PCR ou eventos adversos

No contexto do exposto, os efeitos da cannabis e do óleo de cannabis na doença de Crohn são incertos. Não há evidências que permiam concluir sobre a eficácia e segurança de cannabis e óleo de cannabis para essa finalidade e estudos adicionais com maior número de participantes são necessários para avaliar os possíveis benefícios e malefícios da cannabis nessa doença.

Recomenda-se também que estudos futuros devem avaliar os efeitos da cannabis em pessoas com doença de Crohn ativa e inativa.

Epilepsia
O estudo de Gloss et al (2014) foi realizado nos Estados Unidos da América e teve como objetivo avaliar a eficácia e a segurança dos canabinóides quando usados como monoterapia, ou no tratamento complementar em pessoas com epilepsia.

Foram incluídos 4 ensaios clínicos com um total de 48 participantes.

As intervenções envolveram: (1) grupo tratado com 200 a 300 g de canabidiol por dia em comparação com placebo (duração do tratamento de 4,5 meses); (2) grupo tratado com óleo e canabidiol (100 mg), ou óleo placebo (duração do tratamento: 1 semana) e, sequencialmente, aos pacientes do grupo tratado foi ministrado 300 mg de canabidiol por 1 semana e nas 2 semanas subsequentes, os pacientes do grupo tratado receberam 200 mg de canabidiol por dia (tempo de tratamento: 1 mês); (3) grupo tratado versus controle com placebo. O grupo tratado recebeu cápsulas com 200 mg de canabidiol por 3 meses; (4) grupo tratado versus controle com placebo. O grupo tratado recebeu cápsulas com 300 mg de canabidiol por 6 meses (estudo crossover).

O desfecho primário de análise foi a redução das crises convulsivas.

Os desfechos secundários abrangeram a melhora clínica, a ocorrência de eventos adversos e a melhora na qualidade de vida.

Em todos os 4 estudos foi avaliado apenas como desfecho a ocorrência de eventos adversos, que não foi reportado em nenhum paciente.

Todos os estudos foram qualificados como de baixa qualidade.

Não é possível concluir com confiança sobre a eficácia dos canabidióides no tratamento da epilepsia. A administração de 200 a 300 mg de canabidiol para epilepsia por curto período e em estudos com pequena amostragem não mostrou eventos adversos graves, mas não há evidências de eficácia para tratamento da epilipesia com canabidióides por longo prazo.

Artrite Reumatóide
O estudo de Richards et al (2012) foi realizado na Austrália e teve como objetivo avaliar a eficácia e a segurança dos neuromoduladores no tratamento da dor em pacientes com artite reumatóide, incluindo canabinóides.

Foi incluído 1 estudo que avaliou 58 participantes.

A intervenção envolveu o uso de cannabis versus placebo para dor em oromucosa (Sativex - 2,7 mg de tetra-hidrocanabinol (THC) e 2,5 mg de canabidiol) versus placebo. A duração do tratamento foi de 3 semanas.

Os desfechos primários de análise envolveram a eficácia e a ocorrência de eventos adversos.

Como desfechos secundários, a análise propôs avaliar o alívio/melhora da dor, a impressão global de alteração clínica, a ocorrência de eventos adversos graves, a alteração funcional, a qualidade de vida, a alteração do sono e a depressão.

Como resultado, para melhora clínica, houve diferença pequena e significativa a favor da cannabis (MD -0,72, IC 95% -1,31 a -0,13), mas o estudo é de baixa qualidade e pequena amostragem - Nível de evidência: baixo.

A ocorrência de eventos adversos foi significativamente maior no grupo cannabis (RR 1,82, IC 95% 1,10 a 3,00; NNTH 3, IC 95% 3 a 13), mas de grau leve, sendo tontura (26%), boca seca (13%) e tontura (10%) - Nível de evidência: baixo.

Há poucas evidências de que cannabis em oromucosa é melhor que placebo na redução de dor em pacientes com artite reumatoide, destacando-se para o momento que cannabis oromucosa têm efeito colateral mais significativo.

Infecção por HIV
O estudo de Lutge et al (2013) foi realizado na África do Sul e teve como objetivo avaliar se a cannabis, em sua forma natural ou produzida artificialmente, fumada ou ingerida, reduz a morbidade ou a mortalidade em pacientes infectados pelo HIV.

Foram incluídos 7 estudos com um total de 330 participantes.

As intervenções foram heterogêneas entre os estudos, sendo utilizado: 3,95% de cigarro de cannabis (THC) ou 2,5 mg de dronabinol ou cápsula de placebo (3x/dia), ou cigarros de placebo e cannabis, 3,56% de delta-9-THC, ou cápsulas com 2,5 mg de dronabinol versus placebo, ou cigarros de cannabis com 1% a 8% de concentração de delta-9-THC por peso versus placebo, ou dronabinol de doses variadas (0, 10, 20 30mg) e cannabis (0,0, 1,8, 2,9 e 3,9% delta-9-THC) versus placebo, ou dronabinol de doses variadas (0, 5 e 10mg por os) e cannabis (0,0, 2,0 e 3,9% delta-9-THC) versus placebo, ou dronabinol e cannabis 5mg versus placebo. A duração do tratamento variou de 21 a 84 dias.

Os desfechos primários de análise envolveram mortalidade e morbidade.

Os desfechos secundários relacionaram-se à melhora de apetite, náusea, humor, dor, qualidade de vida, índices de carga viral, função cognitiva, função respiratória, efeito farmacocinético dos antirretrovirais e desenvolvimento de dependência.

A redução de morbimortalidade foi avaliada em 1 estudo (n = 139/88 analisados), realizado no período anterior ao acesso ao antirretroviral e mostrou que os pacientes tratados com dronabinol tinham duas vezes mais chances de ganhar 2 kg ou mais em peso corporal (RR 2,09, (IC95% 0,72 - 6,06) - Nível de evidência: muito baixo.

A mudança de humor foi avaliada em 1 estudo (n=139) - RR=4,93, (IC95% 0,56 – 43,30) - Nível de evidência: muito baixo.

A redução na ocorrência de náuseas e vômitos foi avaliada em 1 estudo (n=139) - RR=6,10, (IC95% 1,69 – 22,01) - Nível de evidência: muito baixo.

O ganho de peso foi avaliado em 1 estudo (n=88) - RR=2,40, (IC95% 0,70 – 8,23) - Nível de evidência: muito baixo.

No que concerne a análise dos estudos incluídos na revisão sistemática, não há evidência da eficácia e segurança de cannabis e canabinóides na redução de morbidade e mortalidade associada à infecção por HIV. Os estudos realizados foram de curta duração, com amostra pequena e concentraram-se em medidas de eficácia a curto prazo. Dados de longo prazo, mostrando um efeito sustentado na morbidade e mortalidade e segurança relacionados à AIDS, em pacientes sob terapia antirretroviral eficaz, ainda não foram apresentados na literatura.

Esclerose Múltipla
O estudo de Mills et al (2010) foi realizado na Inglaterra e teve como objetivo avaliar a eficácia e a tolerabilidade dos tratamentos farmacológicos e não farmacológicos para ataxia em pacientes com esclerose múltipla.

Foram incluídos 3 ensaios clínicos randomizados, totalizando 190 participantes.

Os pacientes foram alocados em grupo tratado e grupo controle. Os grupos foram tratados com extrato de dronabionol versua cannabis versus placebo (4 semanas cada). Como padronização, foi utilizado Sativex sublingual versus placebo (10 semanas) e cannabis oral versus placebo (2 semanas).

Os desfechos de análise foram: análise do índice de tremor, acelerometria (escala de ataxia), tração em espiral, toque com os dedos, 9 HPT, teste de equilíbrio de Berg e avaliação de tolerabilidade.

Em todos os 3 estudos avaliados, as análises não mostraram melhora dos tremores.

Foram identificados eventos adversos de natureza leve, como tonturas, intoxicação e sonolência.

Portanto, não há evidências que o tratamento com cannabis seja eficaz para ataxia em pacientes com esclerose múltipla.

DISCUSSÃO
As revisões sistemáticas realizadas não demonstram efetividade de cannabis e seus derivados para colite ulcerativa, Doença de Chron, epilepsia, dor associada à artrite reumatoide, morbimortalidade associada à infecção por HIV e ataxia relacionada à esclerose múltipla. Para essas condições, os ensaios clínicos realizados até o momento foram de pequeno porte, com amostragem reduzida, o que não permite elencar bom nível de evidência relativo às questões envolvidas. Os poucos estudos realizados não mostraram efetividade da cannabis no tratamento dessas condições. No caso de epilepsia, grande parte dos ensaios clínicos são antigos e bastante heterogêneos. No que tange a análise de dor crônica neuropática, há baixo nível de evidência e, apesar do número de estudos realizados e incluídos e a amostragem ser pouco maior que as demais condições avaliadas, os controles são diversos e a parametrização dos critérios para caracterizar melhora do sintoma dor carece de melhor padronização.

Quanto à ocorrência de eventos adversos, nos poucos estudos realizados, eventos adversos graves foram raros; entretanto, eventos de natureza leve, como vômitos, náuseas e irritação foram mais frequentes.

Fica clara a necessidade de realização de novos ensaios clínicos para investigação da possível efetividade da cannabis no tratamento das condições e doenças por estudo avaliadas, sugerindo-se que novos estudos sejam conduzidos com boa amostragem e o máximo rigor metodológico.

CONCLUSÃO
Não há evidência científica da efetividade de cannabis para tratamento de colite ulcerativa, Doença de Chron, epilepsia, modificação no perfil de morbimortalidade na infecção por HIV, dor na artrite reumatoide e ataxia associada à esclerose múltipla. Para dor crônica neuropática, cannabis pode melhorar o sintoma, mas a evidência é baixa, diante da amostragem pequena nos estudos. A literatura, em nível limitado de evidência, não demonstra efeitos adversos graves ao seu uso, ressaltando-se a necessidade de realização de novos ensaios clínicos de qualidade para elucidação das questões.

REFERÊNCIAS
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