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TRAUMA

20/06/2019 - "É uma perda incalculável"

"No Brasil, a cada 60 segundos, em média, pelo menos cinco pessoas morrem vítimas de acidente de trânsito." A análise faz parte de um estudo divulgado em maio deste ano pelo Conselho Federal de Medicina. Só no estado de São Paulo, em 2018, houve 36.849 internações registradas no Sistema Único de Saúde, um aumento de 1.773 (5,05%) atendimentos, comparado com 2009.

Em números de óbitos, de 2008 a 2016, houve um total de 62.390 mortes no estado. Entretanto, nos últimos três anos foram registradas 5.740 mortes, resultando em uma diminuição de 25,43% quando se compara com os 7.697 óbitos de 2016. Quase 80% das vítimas, segundo o CFM, são do sexo masculino. 

"É uma perda incalculável. As pessoas ficam incapacitadas ou morrem entre os 15 e 40 anos, no auge de sua produção. Ou seja, a sociedade investe, as famílias criam expectativas enormes e, de repente, os sonhos são interrompidos, com danos emocionais, sociais e financeiros", informa o presidente da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado, Tercio de Campos. 

A lesão neurológica, de acordo com ele, é o principal trauma ocasionado com os acidentes em vias de tráfego. "O sobrevivente pode ficar desde acamado pelo resto da vida ou ter limitações significativas, desde um trauma de crânio grave, com perdas de seus domínios, até fraturas na coluna vertebral, que pode levar a vítima a ficar paraplégica ou tetraplégica". 

Amputações de membros, cicatrizes abdominais ou na vértebra torácica e infecções são outras consequências. "São sequelas, infelizmente, frequentes para os sobreviventes de um trauma. Embora sejam problemas de saúde pública muito graves, podem ser evitadas, desde que as pessoas sigam às normas coletivas de trânsito para que tenham um convívio locomotivo adequado", garante o especialista em cirurgia do trauma. 

O presidente da SBAIT entende que é fundamental estabelecer regras e leis bem definidas para que haja a diminuição de acidentes, sobretudo, envolvendo motociclistas - uma das principais vítimas de trânsito -, além de contemplar mobilidades alternativas. 

"As pessoas buscam soluções, mas esquecem que isso pode gerar um problema posterior. Por exemplo, hoje é cada vez mais comum a utilização de patinete elétrico e bicicleta, mas não há uma abordagem sobre os cuidados necessários, como o uso de capacete e das ciclofaixas. Isso ocasiona em perda de segurança e acidente, sobrando para os profissionais de prontos-socorros e hospitais especializados lidarem com a questão lá na ponta."

SERVIÇOS ESPECIALIZADOS E POLÍTICAS PREVENTIVAS 

Conforme levantamento do CFM, em números absolutos, 43% do volume total de internações notificadas no sistema público ficaram concentradas em estados do Sudeste. Com relação aos custos assistenciais, na última década foram consumidos cerca de R$ 2,9 bilhões do SUS, em valores atualizados pela inflação do período, em todo o território nacional. 

Estimativas da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) calculam em cerca de R$ 50 bilhões os gastos com os acidentes de transporte terrestre, incluindo, entre outras despesas, assistência médico-hospitalar, seguros, danos de infraestruturas, perda ou roubo de cargas. "As despesas são altas porque os hospitais públicos referenciados ainda são as principais alternativas para o traumatizado. Especialistas estão acostumados a lidar com casos graves, geralmente tem protocolo de atendimento e os profissionais recebem cursos de aperfeiçoamento", reforça Campos. 

No entanto, a Medicina ainda não tem uma atuação conjunta com os órgãos públicos para o estabelecimento de regulamentações preventivas em tráfego terrestre. Enquanto isso não acontece, o presidente da SBAIT acredita que informação, fiscalização e punição devem regrar tráfego de transporte terrestre. 

"Não há alternativa. As transgressões devem ser punidas com uma legislação rígida, com perdas de direitos. Isso faz com que diminuam os acidentes com vítimas em São Paulo, por exemplo. Além de tudo, essas regras precisam ser elaboradas por profissionais com entendimento em engenharia de trânsito", conclui Campos. 

Matéria publicada na Revista da APM - edição 711 - junho 2019