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09/10/2019 - 4º Encontro para Pacientes com DIIs aborda quadro clínico e tratamentos

"Reuniões como esta são importantes para agregar conhecimento aos pacientes. Com isso, eles se adaptam ao tratamento, o que resulta em melhor qualidade vida”, afirmou a coordenadora Científica do Departamento de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina, Rosângela Porto, na abertura da quarta edição do Encontro para Pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais, realizado na APM em 5 de outubro.

Origem ou causa das doenças, histórico da saúde, tratamento clínico, cirúrgico e psicológico, suporte nutricional e vacinas foram as temáticas abordadas no encontro. Em etiologia, a coloproctologista e colonoscopista Maristela Gomes de Almeida explicou que as causas de manifestações das DIIs, de maneira geral, ainda são desconhecidas.

“Há uma alteração multifatorial de predisposição genética, associada a alguns fatores ambientais, como fumo, estresse e infecções intestinais. Essa combinação genética com predisposição ao meio ambiente resulta em um processo inflamatório crônico.” As doenças acometem, sobretudo, adultos jovens em idade produtiva, entre 20 e 30 anos.

“Mas cresce cada vez mais o número de crianças e idosos com essas manifestações crônicas”, acrescenta a especialista. Inflamação de intensidade variada, doença de Crohn, retocolite ulcerativa e colite indeterminada são algumas das formas de apresentação das DIIs: “Nada mais são que gradações diferentes de uma mesma patologia: no entanto, devem ser tratadas de maneira diferente”.

Quadro clínico

Em casos de retocolite ulcerada inespecífica, Rosângela Porto informa que depende da localização, intensidade da atividade inflamatória, presença de complicações locais e sistêmica para o diagnóstico da doença.

“Diarreia muco-sanguinolenta, dor abdominal, anemia, mal-estar, anorexia, febre e desejo urgente de evacuar são alguns dos sintomas. Em complicações locais, temos sangramento vultuoso, perfuração, megacolontóxico e câncer. Em complicações sistêmicas, sintomas reumatológicas, dermatológicas, oftalmológica e hepática.”

Já a doença de crohn acomete da boca ao ânus, sendo mais frequente nos intestinos delgado e grosso. “Os sintomas mais frequentes são dor abdominal, diarreia, perda de peso, abscesso e fístula perianal, além de mal-estar, anemia, febre ou qualquer manifestação extraintestinal”, pontua. As complicações sistêmicas envolvem problemas reumatológicos, dermatológicos, oftalmológicos e hepáticos.

Tratamentos clínico e cirúrgico

“Todos os anos, temos novidades em diagnóstico e tratamento. Hoje há possibilidade de fazer investigação com os melhores métodos, endoscopia, enteroscopia com duplo balão e cápsula endoscópica”, informa o cirurgião do aparelho digestivo, endoscopia e gastroenterologista, Isaak Altikes.

O especialista reitera que o diagnóstico precoce, vinculado a um tratamento individualizado, contribui significativamente para o controle das DIIs. “Precisamos tratar com metas o alvo das doenças, com foco em tratar a inflamação e não os sintomas”, reforça.

Nessa linha, Altkies lista alguns erros comuns acometidos durante o acompanhamento de pacientes, como uso prolongado e recorrente de corticoides, uso de aminossalicilatos na doença de Crohn, uso indiscriminado de anti-inflamatórios não hormonais, tratamento da anemia ferropriva com ferro oral e rastreamento incorreto do carcinoma de célula renal (CCR).

E defende a abordagem “Treat to Target”, já utilizada em diferentes áreas da Medicina. “Sabemos que as estratégias de tratamento são incapazes de alterar a história natural das DIIs. No entanto, precisamos facilitar a tomada de condutas na prática clínica. É aqui que entra a técnica de trabalho entre médicos e pacientes para discutir em conjunto alvos terapêuticos”, esclarece.

Desde o início da doença, a fase inflamatória é maior do que a cicatriz estenose. É nesse momento que há a necessidade de uma intervenção para mudar a história natural da doença, como explica o presidente do Departamento Científico de Gastroenterologia da APM e cirurgião do aparelho digestivo, Marcelo Pedro.

“Temos também que estratificar quem será submetido a um tratamento cirúrgico ou a outras terapias, quais os fatores preditores, qual a extensão da doença, se são úlceras profundas, se já foi operado anteriormente e se é um paciente que deve evoluir para o tratamento cirúrgico ao longo da vida”, exemplifica.

As cirurgias são categorizadas entre urgência e eletiva, realizadas em hemorragias, estenoses, nas perfurações, fístulas, fissuras, abscessos e megacólon tóxico.

“O que queremos é a remissão ao longo prazo, controle sustentável da doença, com a melhoria dos sintomas, ausência de sinais de sintomas de laboratório, endoscopia normal e cura da mucosa; queremos uma melhor qualidade de vida dele, para evitar hospitalização e operação”, resume.

Alimentação, terapia e imunização

A nutricionista Rebeca Isaac, em palestra “Nutrição para Pacientes”, rememora a exposição diária à poluição, tabagismo, agrotóxicos, antibióticos, anti-inflamatórios, eletroeletrônicos, consumação de alimentos industrializados, fórmulas infantis, qualidade de vida estressante, além de predisposição genética, que corroboram para a predisposição de DIIs.

Ela recomenda que o alimento adequado deve ser escolhido entre nutricionista e paciente. “Precisamos respeita todos os mecanismos digestivos daquela pessoa, e ela precisa estar disposta a fazer o tratamento. Acima de tudo, a prioridade da dieta é auxiliar bioquimicamente a individualidade gastrointestinal do paciente”, afirma.

Os estudos também demonstram que o tratamento multidisciplinar, com assistência psicológica, melhora o prognóstico dos pacientes. “O intestino tem uma ligação muito forte com a emoção. Tanta que muitas pessoas quando estão nervosas têm até diarreia. Por isso, a terapia é eficaz, principalmente, no processo de doença inflamatória intestinal; os efeitos positivos são notórios”, informa a psicóloga Josiane Candido em exposição sobre “A importância do tratamento psicológico em pacientes com DII”.

No aspecto da imunização, o gastroenterologista Wilson Roberto Catapani ressalta que, de forma geral, as vacinas conferem proteção adequadas para as doenças relacionadas. Em pacientes com DIIs, quando usa biológicos e outros ISs, podem estar expostos a maior risco de desenvolver infecções graves e/ou oportunistas, muitas das quais são preveníveis por vacinas”, esclarece.

Os principais biológicos atualmente disponíveis para tratamento das DIIs incluem os agentes anti-TNF, anti-integrina (VDZ) e anti-IL 12/23, sendo o risco de infecções variável conforme a terapia utilizada.

Pacientes

O cientista de dados Jonathas Ferreira, de 26 anos, participa pela segunda vez do encontro. Há seis anos, foi diagnosticado com uma doença inflamatória intestinal. “Tive que mudar muitos hábitos de vida. O lado positivo da doença é que você fica mais sensível à dor do outro, fica mais perceptível aos problemas de outras pessoas, já que tem outro problema tão grave para contornar”, disse.

Já a dona de casa Gislene da Conceição Nicodemos Alexandrino, de 48 anos, teve os primeiros sintomas de Doença de Crohn há 22 anos. Em 2006, tive uma retocolite ulcerada, não tinha remédio que aliviava a dor e a minha perna travava.”

Nesse intervalo, perdeu peso, os olhos inflamavam, as pernas ficavam inchadas e teve perfuração intestinal. “Demorei muito para receber o diagnóstico correto, isso é o que dificultou o meu tratamento”, critica.

Hoje, tem uma vida moderada e recomenda aos pacientes buscarem profissionais qualificados no assunto, participação em congressos e grupos. “Quanto mais você se identifica em encontros como esse promovido pela APM, mais informado, bem direcionado e disposto ao acompanhamento médico você fica”, finaliza.

 

Fotos: Louise Amêndola

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