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18/08/2017 - A reação dos mercados à crise política

PARTE DO COMPORTAMENTO SURPREENDENTEMENTE SERENO DOS MERCADOS RESULTA DA PERCEPÇÃO – CORRETA, NA MINHA OPINIÃO – DE QUE OS PRINCIPAIS MEMBROS DA EQUIPE ECONÔMICA DO GOVERNO PERMANECERÃO NOS SEUS POSTOS E A ESSÊNCIA DA ATUAL POLÍTICA ECONÔMICA SERÁ PRESERVADA, INDEPENDENTEMENTE DO QUE VENHA A OCORRER COM O PRESIDENTE TEMER

Nas 24 horas seguintes à revelação de que Joesley Batista havia gravado o presidente Temer supostamente dando aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha, o dólar saltou de R$ 3,10 para R$ 3,38, o índice Ibovespa despencou 10,5% e a taxa de juros de títulos subiu de 8,7% a.a. para 10,1% a.a. Era a senha do que estava por vir.

Tomando como base o comportamento do mercado financeiro no segundo semestre de 2015, quando a crise em torno da ex-presidente Dilma se tornou mais aguda, a eclosão do escândalo envolvendo Temer poderia levar o dólar para mais de R$ 4,00, o Ibovespa a cair ao menos 20% e os juros a permanecerem sob forte pressão por um longo período.

O escândalo e a tensão financeira fragilizariam Temer, o avanço das reformas econômicas seria interrompido, a Economia cairia em nova recessão e, consequentemente, a eleição presidencial de 2018 seria provavelmente transformada em uma disputa entre candidatos populistas – proprietários de soluções mágicas para a “crise sem fim”.

Passados dois meses e meio do “evento JBS”, no entanto, o dólar e os juros estão recuando e se aproximam dos níveis observados na véspera da eclosão do escândalo, e o índice Ibovespa está em recuperação, a meio caminho do patamar máximo registrado nos últimos meses. Parte do comportamento surpreendentemente sereno dos mercados resulta da percepção – correta, na minha opinião – de que os principais membros da equipe econômica do Governo permanecerão nos seus postos e a essência da atual política econômica será preservada, independentemente do que venha a ocorrer com o presidente Temer.

Em caso de necessidade, Temer será substituído por Rodrigo Maia – o atual presidente da Câmara dos Deputados –, que possui ampla identificação com o trabalho de Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, Ilan Goldfajn no Banco Central e Pedro Parente na Petrobrás. Meirelles, Ilan e Parente, entre outros, são fiadores da atual política econômica, que visa – corretamente, na opinião dos mercados – a criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento da Economia, apoiado no equilíbrio estrutural das contas públicas, na redução sustentável da inflação e dos juros e na elevação da produtividade das empresas, que restaurará o crescimento econômico, mais cedo ou mais tarde.

Por isso, a manutenção da equipe econômica é vista como indiscutível e alimenta a serenidade dos mercados. Para efeito de comparação, no segundo semestre de 2015, ocorria exatamente o contrário: a equipe econômica de Dilma inspirava apenas desconfiança e a equivocada política econômica contribuía decisivamente para a destruição de riqueza no País.

O comportamento sereno dos mercados também resulta – corretamente, na minha opinião – da relativa melhora da situação econômica do Brasil. O ambiente externo é favorável, pois as economias desenvolvidas estão crescendo em ritmo razoável, os juros internacionais permanecem em nível muito baixo e os preços das commodities estão em leve alta. Por aqui, a atividade econômica parou de cair e importantes setores, como energia e veículos, têm emitido claros sinais de recuperação.

Além disso, a inflação corrente está em forte desaceleração e as perspectivas para os próximos anos é positiva. Isso tem aberto espaço para o Banco Central reduzir significativamente o juro básico, de maneira sustentável, ajudando a semear a volta do crescimento econômico mais à frente. Até mesmo o mercado de trabalho tem emitido sinais encorajadores. A fase de destruição de empregos parece ter chegado ao fim e a renda média dos trabalhadores tem crescido mais do que a inflação, gerando, portanto, aumento real dos salários, e consequentemente, melhores perspectivas para o consumo. Novamente a título de comparação, no segundo semestre de 2015, os preços internacionais de commodities estavam em nível historicamente baixo e no Brasil, a atividade econômica estava em queda livre e o dólar, a inflação e os juros subiam fortemente.

Por fim, a serenidade do mercado também resulta da percepção – incorreta, na minha opinião – de que a agenda de reformas econômicas, impulsionada pelo atual Governo, continuará a avançar, com Temer, Maia ou quem quer que assuma a presidência em 2019. Em relação a esse ponto, a serenidade dos mercados me parece desproporcional aos riscos, pois creio que, no curto prazo, o avanço das reformas é incerto, e no médio prazo, ele é fortemente dependente do resultado da eleição de 2018.

O avanço das reformas é incerto no curto prazo pois as energias de Temer estão voltadas, prioritariamente, para se segurar na presidência. E caso Maia assuma, tendo à sua frente um mandato curto e dominado pela eleição de 2018, as perspectivas para as reformas pouco melhorarão.

Em relação a avanços no médio prazo, minha cautela decorre da percepção de que, a despeito das lições que poderiam ser tiradas da profunda crise que atingiu o Brasil nos últimos anos, a agenda de reformas ora em progresso – que visa a redução da interferência do Estado na Economia e o fortalecimento do setor privado – ainda não conta com o apoio de relevantes segmentos da sociedade, os quais, por distintas, e em alguns casos inconfessáveis razões, continuam a apoiar o crescimento da máquina governamental e a ver o Estado como principal indutor do crescimento econômico.

Por ora, nada parece ameaçar a serenidade dos mercados. Porém, é no próximo ano que ela será, de fato, testada.

 

MAURO SCHNEIDER é economista da MCM Consultores

Artigo publicado na Revista da APM - edição 691 - agosto 2017