ENTREVISTAS

06/03/2020 - Academia Nacional de Medicina tem primeiro presidente paulista

Oftalmologista Rubens Belfort Mattos Jr. comandará a instituição durante o próximo biênio

O paulista Rubens Belfort Mattos Jr. assumirá, em março, a presidência da Academia Nacional de Medicina (ANM) para o biênio 2020/2021, sendo o primeiro médico paulista a ocupar o cargo. Belfort é professor Titular do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), mestre em Microbiologia, Imunologia e Parasitologia e doutor em Microbiologia e Imunologia pela mesma instituição. Também é doutor em Oftalmologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Além disso, recebeu a honraria do título de comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico da Presidência da República. Abaixo, Belfort reforça a importância histórica da ANM, comenta o ineditismo de sua eleição e antecipa como pretende conduzir a instituição em seu mandato. 

A história da ANM se confunde com a formação histórica brasileira e com a evolução da prática da Medicina no País. Qual a importância da instituição?
Com 190 anos, a Academia Nacional de Medicina é a instituição científico-cultural mais antiga do Brasil. Orgulho e enorme de nossa Medicina. Muito mais antiga que a maior parte das Academias de Medicina do exterior, inclusive as dos Estados Unidos e de Portugal, foi formada com forte influência da Academia de Medicina da França. 

Nosso primeiro presidente, Joaquim Candido Soares de Meirelles, foi líder estudantil e ajudou a liderar os estudantes brasileiros que influenciaram a decisão de Dom Pedro I em permanecer no Brasil, no famoso "Dia do Fico", em 1822. Neste mesmo ano, Meirelles formou-se em Medicina pelo curso da Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro (atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, pelo destaque de sua atuação, foi enviado a Paris por decreto do Governo Imperial para aperfeiçoamente dos estudos médicos. Ao regressar, doutor em Medicina cirúrgica pela Faculdade de Medicina de Paris, fundou a Academia Nacional de Medicina, durante o reinado de Dom Pedro I, inicialmente denominada Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, mais tarde, por decreto, teve seu nome alterado para Academia Imperial de Medicina e apenas depois da proclamação da República recebeu o nome atual e definitivo. 

Ainda no século XIX, a Academia Nacional de Medicina foi a organização nacional mais importante na luta contra as grandes epidemias de febre amarela, cólera, varíola, tuberculose, etc., destacando figuras de grandes acadêmicos como Francisco de Paula Cândido, José Pereira Rego, Carlos Seidl, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Adolfo Lutz, Vital Brazil e outros tão igualmente importantes no combate às epidemias, no controle de surtos e no desenvolvimento da saúde pública em várias regiões do Brasil. Também recentemente prestou relevantes serviços ao Brasil atuando com liderança nas campanhas relacionadas à AIDS e outras epidemias virais. Durante toda a República, a instituição continua a assessorar os Governos em relação às questões de saúde e de educação médica, informando e agindo em benefício dos ideais da Medicina e de sua aplicação em prol da nossa população, como parte integrante da evolução da prática no País. 

O senhor foi eleito o 66º presidente da ANM, com 92% dos votos, sendo o primeiro de fora do Rio de Janeiro em 190 anos de história. Como é receber esse reconhecimento?

Nossa eleição [confira a composição completa da nova diretoria na pág. ao lado], com enorme aceitação por parte dos acadêmicos, é um exemplo claro da nacionalização da Academia. Com 40 integrantes na secção de Medicina, 40 na de Cirurgia e 20 na de Ciências Aplicadas, a ANM tem, permanentemente, 100 dos melhores médicos do Brasil atuando de maneira contínua, madura e corajosa, inclusive com a realização ininterrupta de sessões semanais desde sua fundação até os dias de hoje. Atualmente, com 25 membros de fora do estado do Rio de Janeiro, a Academia Nacional de Medicina segue sua constante modernização, procurando sempre os melhores médicos de todos os estados do Brasil, e também visa atualmente, com ênfase, aumentar o ingresso de mulheres na instituição. 

Quais são os seus projetos para a expansão do conhecimento científico?
A continuidade dos projetos atuais, de sucesso das últimas diretorias, tem como objetivo fazer crescer o papel e aumentar a intensidade e a abrangência da voz da Academia Nacional de Medicina - em benefício da discussão da pauta moderna da nossa Medicina e da saúde da população brasileira, tratando de levar Medicina de qualidade, com equidade a todos.

Quais são os principais desafios hoje enfrentados na carreira médica acadêmica e profissional?
Continuamos a ter problemas antigos, como as doenças infecciosas. Seguimos com a importância cada vez maior da violência e das doenças crônicas degenerativas, também das doenças mais relacionadas ao envelhecimento, junto a graves problemas emergentes decorrentes de situações ambientais como urbanização progressiva, poluição e um capítulo muito importante relacionado a substâncias tóxicas, legais ou ilícitas

Quais são os principais desafios enfrentados pela Academia Nacional de Medicina?
A ANM é um ambiente de discussão e solução de problemas médicos com grande impacto na sociedade. Exemplos foram os seminários recentes sobre cigarro eletrônico, doenças psiquiátricas e aborto como problemas de saúde pública. Além de emitir pareceres e relatórios indicando e propondo soluções, a Academia é um grande ambiente de discussão no qual referências e tendências podem ser apresentadas, tratando de informar e educar cada vez mais por meio de tecnologias modernas de comunicação. Inclui-se aí outro aspecto muito importante que foi a discussão da Telemedicina, com seus avanços, potencialidades e necessidades de controle social, sem deixar de respeitar a autonomia do cidadão. Bem como sua permanente luta pela existência de padrão mínimo de qualidade dos médicos e de suas condições de trabalho.

Como o senhor pretende estabelecer o estreitamento de relações entre a Academia Nacional de Medicina e as academias estaduais?
Dentro do processo de maior integração, o relacionamento com as Academias Estaduais de Medicina, bem como com a Academia de Medicina de outros países da América Latina, seguirá prioritário. Exemplo recente foi o XXIV Congresso Brasileiro de História da Medicina e I Encontro das Academias de Medicina de São Paulo e do Rio Grande do Sul, que contou com a participação efetiva da Academia Nacional de Medicina, de maneira institucional e por meio de acadêmicos de diferentes estados. O projeto de internacionalização também segue, por meio de contato e reuniões com Academias de outros países, visando o entendimento dos problemas globais e a necessidade de discussões e aplicações locais.

A ANM promove Congressos nacionais e internacionais, cursos de extensão e atualização para a área médica. As questões políticas e econômicas ocorridas nos últimos anos no Brasil, de certa forma, afetam a prática da Medicina. Como pretende discutir essas pautas?
A ANM não está sujeita a influências políticas ou eleitorais; assim, pode se envolver em projetos a médio e longo prazo e, desta maneira, contribuir de forma diferente para discussão e solução de problemas. Não compete com outras sociedades médicas, inclusive de especialidades e, por sua maturidade cientifica e permanente excelência profissional dos acadêmicos, traz importantes subsídios, indo além de questões pontuais e mantendo a pauta relacionada a problemas mais complexos e estruturais.