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19/02/2020 - Coronavírus, o que pacientes e médicos devem saber

Desde a segunda quinzena de janeiro de 2020, uma nova ameaça à saúde é a pauta principal da imprensa mundial: o novo coronavírus COVID-19.

Identificado na China, onde já vitimou milhares de pessoas, está se disseminando por diversos países e causa grande preocupação na população, inclusive entre médicos e demais profissionais de equipes multidisciplinares, por ainda não ter sido decifrado em todas as suas particularidades.

Mas afinal, o que é esse vírus? Como ele se apresenta no ser humano e de que forma é transmitido? São essas nuances, além das formas de diagnóstico e prevenção, o centro da entrevista a seguir, com o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury.

De onde vem esse novo coronavírus?
O coronavírus é recombinante, não uma mutação, como o vírus da gripe. Provavelmente algum animal – que estimamos ser a cobra – alimentou-se de outro animal, ocasionando a recombinação de dois tipos de coronavírus. Eles se misturaram, produzindo uma nova combinação, com a capacidade de infectar o ser humano. Não é raro de acontecer.

Por que ele adquiriu esse caráter tão letal?
Por enquanto, não sabemos se é tão letal assim. Quando se inicia uma epidemia, há desespero. Surgem casos que vão parar no hospital, há os que morrem, sempre é assim. É bom lembrar que falamos de algo extremamente novo; faz cerca de um mês que conhecemos essa infecção. Portanto, os dados não estão consolidados. Soubemos de uma situação na China de uma família de seis pessoas, em que cinco tinham o coronavírus. O sexto, um menino, não tinha. Como moravam sob o mesmo teto e passavam o tempo todo juntos, decidiram examiná-lo. Ele tinha o vírus, mas não apresentou infecção. Então, não é tão letal. Contudo, como apareceram casos graves no início do surto, fica a impressão de que é algo avassalador. Depois, acabamos percebendo que existem quadros leves ou assintomáticos.

O número de casos vem aumentando em vários países do mundo. Como avalia essa disseminação tão rápida?
Qual a eficiência dessa transmissão? Isso não está totalmente definido. Para se ter uma ideia, existe o seguinte critério: a partir de uma pessoa doente, quantas outras ela infecta. Uma pessoa com sarampo infecta de 12 a 18, por exemplo. Isso é brutal. Imagine 15 pessoas infectadas, cada uma infectando mais 15 e assim por diante. Isso sim é uma disseminação rápida. Agora, pensando no novo coronavírus - e com a ressalva de que são dados preliminares, porque ainda está sendo estudado -, são duas pessoas contaminadas. É como a gripe comum.

Então considera ser um risco leve?
Sim, é o mesmo risco de uma gripe tradicional. Na verdade, existe uma série de coisas que precisam ser relativizadas. Por exemplo: na China, eles estão no inverno; nós, no verão. Isso já faz uma diferença enorme, porque doença respiratória é típica de inverno. Provavelmente, se o surto tivesse acontecido em um país durante o verão, a velocidade de disseminação seria menor. Esses episódios chineses estão relacionados a um fenômeno que aconteceu há pouco mais de 10 dias, 12 dias. As pessoas contaminadas estão disseminando a doença. À medida em que métodos de prevenção começarem a ser instituídos, a tendência é que o número de notificações diminua. Os casos de outros países estão sendo isolados.

A preocupação atual seria exagerada?
Não é bem assim. A dinâmica da transmissão depende de variantes: condições climáticas e grau de proteção que se começa a instituir ao longo do tempo. Creio que as medidas tomadas dia a dia têm sido relativamente efetivas. Não há uma explosão de casos em países que receberam pacientes da China. Já na realidade brasileira, o que preocupa é o Carnaval. Parte expressiva da população estará seguidamente, em um mês, frequentando ambientes aglomerados, fechados, sejam salões ou até trios elétricos. Alguns provavelmente estarão alcoolizados, se relacionando com outras pessoas, sem lembrar dos cuidados necessários.  Isso é preocupante.

Quais as formas de se prevenir do novo coronavírus?
A regra número um é evitar aglomerações, porque, em episódios de infecções respiratórias, a contaminação se dá por gotículas. Esses vírus produzem uma “capinha” para se proteger do meio ambiente, o que é chamado de envelope. Assim, ficam no ar durante certo tempo, o que é fator de contaminação. Também é importante lavar as mãos com frequência como forma de prevenção. Os vírus, geralmente, caem em mesas e corrimãos. Ao ter contato com essas superfícies e depois coçar o nariz, os olhos ou a boca, sem querer, pode haver contaminação. Por precaução, seria bom fazer a lavagem das mãos a cada duas horas, mais ou menos. Ao chegar em casa, lavar as mãos deve ser prioridade. Isso é extremamente eficiente como prevenção. Se tiver álcool gel, igualmente ótimo.

A utilização de máscaras também é eficaz?
Alguns têm utilizado máscaras, o que confere certa proteção adicional. Mas, como a respiração é úmida, a máscara vai ficando molhada e perdendo a efetividade. Nessa situação, é recomendável trocá-la de duas em duas horas. Outro cuidado relevante é lavar as mãos sempre ao sair do transporte coletivo, se tiver a oportunidade.

A vacina contra a pneumonia pode ajudar no combate ao coronavírus? Existe algum medicamento para imunização da população?
Não. A vacina protege somente contra a pneumonia bacteriana; a eficácia contra o coronavírus é nula. Ainda não há vacina contra o vírus. Aliás, produzir vacina é um processo demorado. Avaliar se ela protege e quais são os efeitos colaterais demora meses, até anos. O mesmo ocorre com os medicamentos: primeiro, tem de encontrar um que combata esse tipo de infecção; o que, até agora, a gente desconhece. Depois, começam os tratamentos para descobrir qual é a dose necessária, com que frequência, por quanto tempo, além dos efeitos colaterais. Não tem como fazer isso rapidamente. Por enquanto, o mais importante é a prevenção por métodos simples do dia a dia.

Existe algum grupo que seja mais propenso à doença?
A partir dos casos atuais, percebe-se que a idade mediana é de 49 anos, majoritariamente em homens. Pode estar relacionado ao fato de que o foco dessa infecção foi o mercado de animais, na cidade chinesa de Wuhan, mais frequentado pelo sexo masculino. Normalmente, em problemas respiratórios, não existe essa diferença: crianças e adultos são contaminados dependendo do grau de exposição.  Além disso, tendem a não ser muito graves. As maiores complicações se dão em idosos, hipertensos, diabéticos ou fumantes, isto é, pessoas mais fracas e debilitadas para o combate à doença.

O fato de a Organização Mundial da Saúde ter declarado emergência global, assim como o zika vírus foi, leva o problema a qual dimensão?
Os dois casos são um pouco diferentes, porque há condições próprias do zika, como a presença essencial do mosquito, a transmissão da grávida para a criança e o risco do desenvolvimento de microcefalia. Compreendo que essa mudança de postura da OMS vem para dar respaldo às medidas de saúde pública que podem ser um pouco invasivas. Por exemplo, muita gente não aceita quarentena ou realizar o controle de temperatura na chegada do aeroporto. Então, é uma medida de cunho político da OMS que justifica certas atitudes não tão bem-vistas pela população. É lógico que também há, por trás disso, a percepção de que está havendo uma disseminação fora do grupo original. No começo, não havia essa noção. Em função da realidade, mudaram a postura.

Há riscos maiores para a mulher gestante?
Se para qualquer pessoa a doença já é motivo para preocupação, às gestantes ainda mais. Hoje em dia, as mulheres engravidam uma ou duas vezes, então é um período muito especial da vida. Não há dados, nesse momento, de que a grávida seja mais propensa a contrair a doença, como já aconteceu, por exemplo, com o H1N1. Nem existe suspeita, porque 75% dos infectados são homens, e a maior parte é de mais de idade. Assim, não pega a faixa etária comum às mulheres grávidas. Porém, qualquer doença infecciosa na gravidez é grave, já que o metabolismo da mulher é desviado para combater infecção, deixando o bebê mais exposto a uma complicação. É preciso prevenir, mas não mais do que outra doença qualquer.

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