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27/11/2017 - Evento da APM debate o uso dos canabinóides no tratamento da dor

Com a proposta de reunir profissionais de diferentes áreas para aprofundar o olhar sobre a aplicação dos canabinóides no tratamento da dor, o Departamento Científico de Dor da Associação Paulista de Medicina realizou um simpósio na sede da entidade em 25 de novembro. Mais de 100 pessoas estiveram presentes no evento, que apresentou os avanços, as limitações e as perspectivas dos estudos clínicos.

“O uso medicinal da cannabis para vários tratamentos tem se expandido nos últimos anos, com apresentações e formulações disponibilizadas. No entanto, o assunto é polêmico porque a maconha é usada para fins recreacionais, sendo a terceira principal droga no mundo. É um assunto atual oportuno”, explica o coordenador do Departamento Científico e organizador do encontro, Rogério Adas Ayres de Oliveira.

Oliveira afirma, ainda, que a comunidade médica está carente de informações qualificadas quanto ao uso da substância para tratamento terapêutico. “No ensino convencional, o assunto não é difundido, até pelo fato de a maconha ter sido criminalizada e o cultivo não ser permitido no Brasil. Isso restringiu os estudos da cannabis como ferramenta medicinal, mas esse cenário está mudando. Por isso, a proposta deste encontro foi reunir farmacologistas que fazem pesquisas, psiquiatras e clínicos para aprofundar o debate.”

 A primeira aula “Histórico e farmacologia do uso medicinal dos canabinóides no tratamento de dor” foi ministrada por Rafael Guimarães dos Santos, doutor em Farmacologia pela Universitat Autònoma de Barcelona, Espanha, e pós-doutorando pelo Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Santos também faz parte de um dos grupos pioneiros de estudos de canabinóides no Brasil.

Na ocasião, ele abordou os aspectos básicos dos canabinóides, desde o surgimento da planta da maconha - sendo que as primeiras espécies foram cultivadas na Índia e na China e depois se espalharam pelo mundo -, as principais substâncias presentes na planta e um histórico dos estudos que têm sido desenvolvidos no mundo, principalmente sobre a dor.

As substâncias mais difundidas pela mídia são o canabidiol (CBD), isolado em 1940, e o tetrahidrocanabinol (THC), isolado em 1964. “Entretanto, é uma planta que tem mais de 400 compostos e mais de 100 canabinóides. Ou seja, estamos arranhando só a pontinha do iceberg, mas há muitas outras substâncias que desconhecemos sob o ponto de vista terapêutico ou tóxico”, aponta.

Com relação à limitação nos estudos, segundo o pesquisador, as evidências não são tão robustas quando se trata do campo científico. “Sabemos do seu efeito analgésico, mas não parece que é para todas as condições de dor, como neuropatia e câncer. Há poucos estudos nessa área.”

 

Potencialidades terapêuticas

O psiquiatra e psicanalista Remo Rotella Junior apresentou o tema “Terapia com canabinóides em contexto psiquiátrico: riscos e potencialidades”. De acordo com ele, estudos recentes apontam que a maconha fumada não causa lesão disfuncional ou anatômica cerebral. “Por outro lado, há o risco respiratório, com a possibilidade de desenvolver um câncer de pulmão e doenças respiratórias. O uso na adolescência traz efeitos colaterais psicológicos, com alteração no comportamento social e evasão escolar, além de riscos para indivíduos com quadros psiquiátricos latentes de psicose e depressão”, acrescenta o especialista.

Rotella faz parte de uma organização não governamental que apoia a legalização dos canabinóides como potencialidade terapêutica. “Que esse apoio venha por meio da Anvisa para o tratamento da dor crônica, de quadros de epilepsia e de ansiedade, entre outras doenças.”

Para o neurologista Daniel Ciampi Araujo Andrade, que ministrou a aula “Perspectivas para o uso dos canabinóides na dor neuropática”, fenotipar o paciente em pesquisas de tratamentos é um dos grandes desafios enfrentados em estudos clínicos. “Uma revisão de 2017 agregou o maior número de pacientes com dores homeopáticas que toleraram o uso da substância. Para isso, um grupo que responde ao tratamento foi misturado a outro que não responde. Não sabemos em pormenores quem são as pessoas que compõem o grupo, se tem a ver com o fator metabólico, alguma comodidade etc.”

Andrade também destaca a importância de segmentar a discussão. “Estamos falando de legalização da maconha ou do uso medicinal? Se for em atuação médica, precisa de um sobrenome, por exemplo, para o tratamento de fibromialgia crônica. Isto é, depende de uma situação clínica para a discussão ser feita. Por fim, precisamos saber como será custeado o tratamento para doenças crônicas pelo SUS.”

Para fechar o ciclo de debates do Simpósio, a pediatra e neurologista infantil, de dor e cuidados paliativos, Sandra Caires Serrano, abordou “Canabinóides na dor oncológica: cenário atual”. “Atualmente, não há evidências suficientes para recomendar a inalação de cannabis como tratamento para sintomas relacionados ao câncer ou seu tratamento, ou mesmo sobre os efeitos colaterais relacionados ao tratamento oncológico. Pesquisas adicionais são necessárias”, ressalta.

Sandra também citou os critérios e procedimentos da Anvisa, atualizados em 2016, quanto à prescrição e autorização para a importação dos produtos e fármacos à base de canabidiol, em associação com outros canabinóides [incluindo THC], por pessoa física e para uso próprio, mediante prescrição de profissional legal e habilitado para tratamento de saúde. “Uma nova resolução estabeleceu que os fármacos derivados da Cannabis sativa incluídos na lista da Anvisa sejam registrados em concentração máxima de 30 mg de THC por mililitro e de 30 mg de canabidiol por mililitro. Produtos em concentração maiores permanecem proibidos”, finaliza.

Fotos: Marina Bustos

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