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06/12/2018 - Falta de regulamentação atrasa uso de tecnologias na Saúde

Apesar da pouca ação do Ministério da Saúde e do CFM em normatizar as práticas, pesquisa da APM aponta que médicos já incorporaram muitos recursos em seu dia a dia

“A tecnologia auxilia os médicos. Quando observamos o uso das novas ferramentas em todas as indústrias, entendemos que elas substituem funções muito rotineiras, mas não práticas complexas e humanas. Então, precisamos enxergar a tecnologia como algo que ajude os médicos e profissionais de Saúde a realizarem seu trabalho de maneira mais eficiente. Ao substituirmos funções automatizadas, todos ganham, já que poderemos focar nas questões que realmente só os humanos podem fazer.”

Essa é a avaliação que Robert Wah, chief medical officer da DXC Technology e ex-presidente da Associação Médica Americana (AMA), fez no dia 4 de dezembro, em entrevista coletiva à imprensa realizada pela Associação Paulista de Medicina – que também contou com apresentação dos resultados da pesquisa “Tecnologia e Saúde”, que mapeou o uso, por parte dos médicos, dos recursos tecnológicos, buscando entender a percepção sobre a necessidade de avanços na incorporação das ferramentas e nos marcos regulatórios.

Atualmente, 84,67% dos pesquisados afirmam utilizar ferramentas de Tecnologia de Informação para observação dos pacientes e otimização do tempo de consulta. O que mais utilizam é o prontuário eletrônico (76,75%), seguido de sistemas de agendamentos de consultas (12,81%) e sistemas de gestão de consultório (5,71%).

E a incorporação de outras tecnologias no dia a dia dos médicos – como inúmeras ferramentas da Telemedicina - poderia ser muito maior, caso houvesse a devida normatização por parte dos órgãos responsáveis. Neste sentido, quase metade dos médicos (49,41%) entende que o Conselho Federal de Medicina não regula adequadamente as soluções digitais para a Saúde e para a Medicina.

Outros 79,36% acham que o Ministério da Saúde não está disseminando tecnologias em favor da saúde dos pacientes. Além disso, 91,51% dos que responderam a pesquisa pensam que o Brasil está atrás, em termos de incorporação de ferramentas digitais para Medicina e Saúde, de países como Estados Unidos, Japão e Alemanha.

Ferramentas de comunicação
Entre os dados mais relevantes da pesquisa, Jefferson Gomes Fernandes, presidente do Conselho Curador do Global Summit Telemedicine & Digital Health – evento que será realizado pela APM entre 4 e 6 de abril de 2019, no Transamerica Expo Center - destacou que, embora a maioria (57,9%) dos médicos seja contrária à realização de consultas a distância, 85% concordam com a utilização de ferramentas de mensagens instantâneas, com o WhatsApp, entre médicos e pacientes.

E entre os que são favoráveis ao WhatsApp, 42,7% afirmaram que já o utilizam para responder dúvidas dos pacientes entre uma consulta e outra, 34% disseram que a ferramenta inclusive serve para receber exames e fotos para ajudar nos diagnósticos e tratamentos e 23,3% alegam que, apesar de concordarem com o uso do sistema de mensagens, ainda não o fazem. Por outro lado, 50,83% dos médicos discordam das prescrições serem feitas a distância.

“Trocar exames e fotos no celular é, de certa forma, uma consulta a distância. As respostas mostram que há um processo natural de transformação de cultura, além do entendimento do que são as ferramentas e como usa-las. Há a questão chave da relação médico-paciente e o quão fundamental é a atividade presencial. Então, devemos pensar quando usar o WhatsApp e com que finalidade. E entender o que percebemos como Telemedicina, ou saúde conectada, responsável. É uma questão importante de mudança de mindset, que é algo progressivo”, declarou Fernandes.

Para Antonio Carlos Endrigo, diretor de TI da APM e presidente da Comissão Organizadora do Global Summit, é importante entender que essas ferramentas não foram criadas para a comunicação entre médicos e pacientes, embora sejam utilizadas para tal. “Um dos problemas disso é que não há registro de atendimento. Ou quando há, ele pode ser modificado, seja pelo paciente ou pelo médico, causando problemas na relação. É importante, portanto, termos uma regulamentação que abra a possibilidade de empresas de tecnologia desenvolverem produtos adequados ao setor de Saúde.”

A visão de Wah também vai nesse sentido. O especialista norte-americano afirma que é fácil entender porque é tão frequente a utilização de aplicativos de mensagens instantâneas, pela conveniência. Mas defende que não é porque algo é conveniente que é correto. E questiona: “Por que colocamos os nossos diagnósticos médicos nestes aplicativos, como o WhatsApp, se não colocamos informações como dados bancários e número do cartão de crédito?”.

O diretor da DXC Technology ainda contou sobre um experimento que está conduzindo na China, em uma cidade com 7 milhões de habitantes, onde os cidadãos estão sendo integrados em um sistema de saúde todo digital. “Há um aplicativo para os médicos, o governo tem acesso aos dados, e os profissionais sabem, de acordo com o histórico do paciente, os procedimentos que devem fazer. Lançamos também para o paciente, que pode ver os resultados de seus exames, os diagnósticos e marcar consultas. É impressionante. É o que a sociedade quer ver e como enxergamos o papel da tecnologia, dando subsídio com informações para os médicos tomarem as decisões corretas”, relatou.

Futuro
Quanto à evolução do setor, 72,79% dos participantes da pesquisa concordaram com a frase “A tecnologia não vai substituir o médico, apenas o médico que não usa a tecnologia”. Por outro lado, 79,72% não acham viável que a tecnologia avance ao ponto de os pacientes poderem fazer seus próprios diagnósticos.

Para Endrigo, haverá uma redução de profissionais de Saúde no futuro, além da transformação de outros, que atuarão de acordo com as tecnologias mais recentes. “Mas isso irá demorar. Hoje, um dos maiores problemas da saúde é o acesso. Muitos pacientes não conseguem atendimento pelas barreiras geográficas e muitos médicos têm ociosidade, pois os pacientes não chegam. Então, as novas tecnologias devem acomodar essa questão. Outro ponto é que aqueles que não se adaptarem às novas ferramentas sairão naturalmente do mercado.”

Jefferson Fernandes acredita que quanto mais for possível automatizar processos manuais, maior eficiência haverá na área. De acordo com ele, há estudos que mostram que os médicos passam até 50% do seu tempo digitando, quando o mais interessante seriam direcionar a maior parte de sua agenda para os cuidados com os pacientes.

“Quando inventaram os carros, pensaram o que fariam aqueles que trabalhavam com charretes. E o que houve? Aprenderam a manusear carros, houve mudanças, criou-se o mecânico. E assim caminha a humanidade. As tecnologias, aplicadas corretamente, nos farão melhores profissionais. Nada irá substituir o médico”, argumenta.

“A minha perspectiva, como médico e como alguém que trabalha com tecnologia ao redor do mundo, é de que o Planeta está em uma jornada de transformação digital. As pessoas hoje ainda vão aos consultórios com vários papeis, mas estamos mudando para um sistema de armazenamento de informações em computadores. Poderemos assim cuidar melhor das pessoas. A tecnologia irá mudar tudo”, prevê Robert Wah.

Armazenamento de dados
93% dos participantes do levantamento da APM entendem que é benéfico que as informações de Saúde sejam disponibilizadas em nuvem digital, com proteção de dados, mas acessível ao médico, sob autorização do paciente. E outros 97,41% acham que esse compartilhamento seguro de informações trará benefícios aos médicos, aos pacientes e ao sistema.

Além disso, 78,3% dos médicos acreditam que os celulares funcionarão como “guardiões da saúde”, possibilitando que cada cidadão tenho o controle de sua própria situação, direto de sua casa; e 93,87% pensam que tecnologias como a impressão de tecidos 3D chegarão à Medicina. Porém, 58,14% também afirmaram que seus locais de trabalho ainda não contam com os melhores recursos tecnológicos disponíveis.

A pesquisa foi realizada entre 9 e 26 de novembro, por meio da ferramenta on-line SurveyMonkey, com 848 médicos, sendo 41% mulheres e 59% homens. Neste universo, houve praticamente unanimidade em afirmar que as novas tecnologias trarão avanços à assistência aos pacientes – apenas um participante acredita que não.

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Global Summit Telemedicine & Digital Health
O intuito do evento, que será o maior da América Latina sobre o assunto, é promover conteúdo que possa ser transformador para todos os participantes. Para tanto, serão mais de 50 palestrantes nos três dias de Congresso, com a expectativa de mais de 1.500 pessoas.

Haverá, além das discussões e das mais de 70 horas de conteúdo, um hub tecnológico e um espaço de inovação, com startups do setor, representantes da indústria, dos hospitais, das operadoras de planos de saúde, entre outros. O evento também abarca o 9º Congresso Brasileiro de Telemedicina e Telessaúde.

Experiências únicas, como o Espaço Innovation Challenge, onde será possível mostrar suas ideias e soluções inovadores em um hackathon, também estão previstas. Será uma competição para o mercado da Saúde, mostrando as tendências atuais e promovendo a conexão com investidores que viabilizam os projetos a serem implementados.

“O objetivo é trazermos essa visão da tecnologia a serviço da vida. Tanto Telemedicina quanto Saúde Digital, seja o nome que for, é algo que precisamos, como País, desenvolver. São novidades que contribuem para os cuidados, trazem mais acessibilidade e resolução, além de reduzirem custos. Queremos algo que seja transformador”, finaliza o presidente do Conselho Curador do evento, Jefferson Fernandes.

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Fotos: Marina Bustos

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