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17/04/2017 - Febre Amarela - Uma história de recomeços

ERRADICADA EM MEADOS DOS ANOS 1940, NAS ÚLTIMAS DÉCADAS, O PAÍS VOLTOU A REGISTRAR SURTOS IMPORTANTES DE FEBRE AMARELA. A MAIOR CIRCULAÇÃO VIRAL HOJE TEM PREOCUPADO AS AUTORIDADES BRASILEIRAS. EM SÃO PAULO, O GOVERNO PREPARA AÇÃO IMUNOLÓGICA PARA PROTEGER A POPULAÇÃO CONTRA A DOENÇA

Embora haja indícios de epidemia no Brasil desde o século 17, foi a partir de meados do século 19 que a febre amarela passou a ser uma questão discutida pelos médicos brasileiros, como a necessidade de defesa sanitária permanente. Os debates sobre a urgência de sanear a capital do então Império, Rio de Janeiro, se aprofundaram nos anos de 1873 e 1876, em razão de duas epidemias violentas, conforme relata a obra “Febre amarela: a doença e a vacina, uma história inacabada”, coordenada por Jaime Larry Benchimol.

As últimas grandes epidemias urbanas em território nacional foram registradas na cidade do Rio de Janeiro, em 1929, e no município de Sena Madureira, no estado do Acre, em 1942. De 1970 a 2001, a febre amarela voltou a assustar os brasileiros. Naquele período, o Estado ocupou o terceiro lugar, entre países da América do Sul, com a notificação de 849 ocorrências.

De lá para cá, com a maior circulação viral e envolvimento de áreas antes tidas como não endêmicas, o Ministério da Saúde tem acompanhado notáveis surtos recentes da doença silvestre em regiões do País. De janeiro ao início de março deste ano, já foram confirmados 371 registros, sendo quatro casos em São Paulo. Como medida preventiva, o governo paulista anunciou que pretende vacinar a população de todos os municípios, incluindo as áreas consideradas como livres de risco, a partir deste segundo semestre.

O secretário do Departamento Científico de Infectologia da Associação Paulista de Medicina, Adilson J. Westheimer Cavalcante, aprova a medida. “A vacina de febre amarela é a forma mais eficaz de prevenção da doença, pois não há tratamento específico para o vírus. E a imunização protege o indivíduo em eventual exposição ao vetor. A ação do governo é eficiente e visa prevenir um surto. ”

A discussão entre as autoridades de Saúde sobre a vacinação ampla, não somente em São Paulo, mas em todo o Brasil, é remota. No entanto, o infectologista Jessé Alves, diretor médico do Delboni Auriemo, pondera sobre a necessidade de um critério mais cuidadoso de custo versus efetividade e risco versus benefício. “Sabemos que a vacina pode desencadear reações adversas graves em algumas populações específicas, e um programa de vacinação abrangente e apressado poderia incorrer em vacinação de indivíduos não elegíveis. Dessa maneira, introduzir a vacina somente em áreas próximas à ocorrência de casos humanos e epizootias é uma abordagem mais segura a ser tomada.”

Ciclos de transmissão

Da família Flaviviridae, a febre amarela apresenta dois ciclos básicos transmissores: o silvestre complexo e o urbano simples. A transmissão silvestre ocorre em primatas não humanos (macacos), e os principais transmissores são os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. O ser humano é contaminado acidentalmente quando vai para áreas rurais ou florestais onde há a circulação do vírus.

Já a contaminação urbana envolve o ser humano e ocorre principalmente pelo vetor Aedes aegypti. “Se um indivíduo com febre amarela silvestre é picado por Aedes no meio urbano, este vetor passa a transmitir o vírus a outras pessoas. Até o presente momento, isso não ocorreu”, explica Cavalcante.

Os surtos registrados no País têm sido de febre amarela silvestre e com frequência fora da região amazônica, o que leva a um maior desconhecimento da população sobre as áreas de risco real. Sudeste, Sul e Centro-Oeste são as regiões hoje com mais focos da doença. Segundo Alves, essa disseminação talvez se deva às migrações humanas e alterações climáticas e ambientais. “Mas não se tem ao certo uma única causa definida. O fato é que o ser humano está cada vez mais próximo dos pequenos reservatórios silvestres, onde o ciclo da doença se completa”, acrescenta o infectologista.

Quadro clínico

Os sintomas da febre amarela urbana e silvestre são os mesmos. Como já abordado, o que diferencia é apenas o vetor de transmissão. A doença manifesta se, geralmente, de três a seis dias após a picada do mosquito transmissor, mas pode levar até 15 dias para suceder. Quadro recorrente de febre com início súbito, calafrios, dor de cabeça, nas costas e no corpo em geral, náuseas, vômitos, fadiga e fraqueza, icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos) e sangramentos. Cerca de 20% a 50% das pessoas que desenvolvem o vírus de forma grave podem morrer.

O indivíduo com febre aguda, de início súbita, acompanhado de icterícia e/ou manifestações hemorrágicas, habitado em áreas de risco e não vacinado deve ser considerado como possível suspeito da doença. O profissional de Saúde deve notificar o fato imediatamente, nas primeiras 24 horas após o atendimento inicial, para a vigilância epidemiológica.

“Ele deve solicitar os exames específicos, sendo o PCR para febre amarela até o sétimo dia de início dos sintomas, e a sorologia de febre amarela após o sexto dia de início dos sintomas. Outros exames gerais devem ser requeridos conforme a apresentação do quadro clínico do paciente. E o tratamento clínico de suporte deve ser iniciado”, informa o secretário do Departamento Científico de Infectologia da APM.

“Não há tratamentos específicos, apenas suporte intensivo para os casos graves”, acrescenta Jessé Alves. A internação em enfermaria ou unidade de terapia intensiva, segundo ele, deve ser feita de acordo com critérios de gravidade.

Matéria Publicada na Revista da APM - edição 686 - março 2017