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29/08/2018 - Lea Albertoni - Mais do que pacientes, alunos

Conversamos com Lea Albertoni, referência quando o assunto é Classes Hospitalares, para entendermos como é o processo educacional de crianças hospitalizadas

 

Lea Chuster Albertoni fala com paixão sobre a realidade que ajudou a construir. Desde 2005 à frente das Classes Hospitalares (CHs) no Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina, a pedagoga mergulha na história do processo educacional de crianças hospitalizadas – ou em contextos ambulatoriais e domiciliares – e nos conta um pouco da importância disso no desenvolvimento destes jovens.

Concorda que podemos chamar as CHs de pontes, que interligam os alunos, as escolas, as famílias e os médicos, com intuito de manter a progressão dos estudos caso a caso. Abaixo, além de definir como privilégio atuar junto destas crianças, Albertoni fala sobre o contexto e o cenário atual das CHs, no Brasil e no exterior, a formação dos profissionais, os objetivos e benefícios, e muito mais!

O que são, em linhas gerais, as CHs?

É importante, primeiro, contextualizar um pouco a interface entre a área da Saúde e da Educação. O tratamento da saúde não envolve apenas os aspectos biológicas da tradicional assistência médica oferecida ao paciente. Além dos cuidados vitais, demais fatores estão envolvidos no processo de adoecer e na hospitalização. A fim de minimizar o sofrimento provocado pela hospitalização e pelo sofrimento, oferecendo assistência integral ao paciente – e aqui reitero que para nós, da Educação, é sempre aluno, enquanto para Pediatria, é paciente – podemos constatar que existem projetos de humanização. Há os clowns [palhaços], os doutores da alegria, os pets, projetos com o intuito de socializar a interação entre pacientes, familiares e os profissionais responsáveis. Mas como pensar em uma criança, na condição de aluno, em um hospital, ambulatório ou acamado em domicilio? Qual a fundação da educação em contextos de tratamentos de saúde? Falamos de crianças e jovens que por condições adversas de saúde não podem ir à escola, tendo, portanto necessidades educacionais especiais, permanente ou temporárias. Para entender estes alunos segundo princípios da universalização do ensino, considerando o que propõe a Constituição de 1.988 e a Política Nacional de Educação Especial, na perspectiva da educação inclusiva, surgem as classes hospitalares.

 

Que funcionam de que maneira?

Trata-se de um atendimento pedagógico-educacional que ocorre em ambientes de tratamento de saúde, seja na circunstância de internação, como tradicionalmente conhecida, seja em atendimento em hospital-dia, hospital-semana ou serviços de atenção integral à Saúde Mental. O atendimento pedagógico domiciliar também ocorre. Muitas vezes o aluno tem alta hospitalar, mas não pode ir para a escola. As CHs, então, têm de estar vinculadas a um sistema de Educação – não surge mais apenas da vontade de alguém, como já foi antes. Hoje, elas têm de serem oficializadas, para que a escola de origem do aluno seja reconhecida. O professor da classe é quem faz essa mediação, entre a criança e a instituição educacional em que ele está matriculado, ou buscando matricula-lo em uma. O que é muito importante: o adoecer traz muitas repercussões no processo de desenvolvimento, o aluno sente dor, fica indisposto. Essas questões trazem indisposição e indisponibilidade para o jovem voltar a ter rendimento normal. E, por vezes, os professores não sabem lidar com isso. Tudo isso vai gerando dificuldade de aprendizagem. Outro ponto: não é uma aula particular! Não é apenas reposição de conteúdo. O professor não pode deixar de vislumbrar que esse aluno não é da CH, mas sim do ensino regular e que está em situação especial. O profissional, então, tem que entender qual a necessidade do aluno, entrar em contato com a escola regular e se relacionar com família, instituição de saúde e de educação, para que o aluno volte em condição favorável aos estudos. É uma ponte, visto que o índice de abstinência e evasão de crianças adoentadas é grande.

“No HSP, a Classe
Hospitalar surgiu
em 2005, com o
apoio irrestrito do
Departamento de
Pediatria”

E quais são os objetivos do projeto?

Garantir o direito à Educação sem discriminações. Muitas vezes o aluno vai à escola com algum suporte, coma bolso de colostomia ou cateter, e sofre bullying. As CHs representam esforços para a universalização do ensino obrigatório. Dentro do objetivo da educação inclusiva, para que as crianças possam retornar ao ensino regular. Além do direito legal à Educação e à Saúde, devemos nos ater ao fato de que crianças e jovens têm necessidades intelectuais próprias do desenvolvimento psíquico e cognitivo. As classes estimulam isso, ao mesmo tempo que interferem no processo de adesão ao tratamento, pois o aluno se sente com mais esperança na vida e no retorno à escola. Mesmo que não chegue tão longe, há um amigo que manda uma cartinha, um professor que liga, uma matéria que chega. Então ele pensa que fazer uma matéria hoje, é um sinal de que estarei vivo amanhã, ele vê que estão apostando nele.

 

Como é a relação com essas crianças?

Quando condições adversas as acometem, exigindo tratamentos muitas vezes invasivos e prolongados, elas demandam uma educação que não é apenas a da escola, conteudista. Mas exige do professor que tenha uma escuta pedagógica. Ou seja, preparamos uma aula, mas precisamos saber que em um determinado dia de dor, podemos trabalhar com uma história, uma música, uma atividade de psicomotricidade, com o toque, o afeto, o vínculo familiar. É um acervo grande que temos que dispor para podermos dar conta desse momento de sofrimento. Também buscamos o histórico desses alunos, conhecendo suas características e singularidades, que demandam intervenções eficazes, direcionadas em uma perspectiva diferenciada. É necessário ser perspicaz para perceber como ele se porta, pega uma caneta, o que o diverte e o que estimula. Muitos chegam sem base de alfabetização e nós retomamos esse processo de um jeito que não os faça se sentir diminuído, mas fortalecidos. Temos casos lindíssimos assim.

“Falamos de crianças
e jovens que, por
condições adversas
de saúde, não
podem ir à aula”

Além da continuidade, quais os benefícios que as CHs trazem aos jovens?

Já desde o início do século passado, a Psiquiatria Infantil chama atenção para os riscos no desenvolvimento decorrentes da hospitalização. São estudos que abordam essas quebras, essa lacuna entre o antes e o depois. De repente, um aluno chega na escola, após uma internação, e o professor diz: “vamos lá, não falte mais, retome esse conteúdo”. O professor não cede esse espaço para falar da dor e do sofrimento, normalmente. Aqui no Hospital São Paulo, no primeiro dia de internação, já começamos com uma anamnese e conversamos com os pais, o que é muito importante, devido ao tempo curto. Esse afastamento de casa, do convívio com familiares e todo o referencial social, podem afetar seriamente o desenvolvimento psíquico e cognitivo. Devemos sempre considerar que os processos que organizam a subjetividade e que possibilitam, de modo singular, a construção do psiquismo são em grande parte organizados pelos efeitos da aprendizagem. Assim, as CHs resgatam aspectos saudáveis mantidos mesmo em face da doença, respeitando e valorizando processos afetivos e cognitivos na construção do conhecimento de mundo, que também diz respeito ao desenvolvimento do raciocínio lógico e de resolução de problemas. Isso vem sendo visto na Neurociência aplicada à educação.  

 

E como você ingressou nesse trabalho?

Minha vida toda foi dedicada à Educação, passei por ensino particular, por professor, por orientadora, fui gestora de escola pública, pedagoga, entre outras instâncias. Para entender o aluno em sua essência, me formei em Terapia Familiar. Depois, quis entender a criança em outro contexto: o institucional. Meu mestrado, na Psicologia Social, foi em uma análise da terapia familiar em uma creche. Isso de entender o aluno em diferentes aspectos já estava dentro de mim. Já no meu sétimo ano como diretora da Paulistinha [escola para crianças ligadas aos funcionários da Unifesp], recebi o convite para montar as CHs no Hospital São Paulo. Não conhecia a fundo o que era pedagogia no contexto hospitalar e fui estagiar na enfermaria. A minha entrada foi com uma garota em fase avançada de doença renal crônica. Ela não queria conversar, mantinha só os olhos para fora do cobertor. Quando perguntei sobre a escola, se ela tinha saudades, ela foi abaixando o cobertor e conversando comigo. Liguei para a escola dela, em Jundiaí, que disponibilizou a deixar um material para a mãe dela buscar. No fim de semana, ela piorou, foi para a UTI e faleceu. A mãe me contou que quanto ela entrou na UTI, a garota disse que estava feliz, pois ia entrar em contato com os amiguinhos da escola e com os professores. Decidi ficar. Depois disso, continuei estudando, estruturei um projeto de voluntariado para professores com um projeto político-pedagógico, apresentado às secretárias de Estado e do município e aprovado em ambas instâncias. Sempre com o apoio da EPM, da Unifesp e da SPDM.

 “Muitas vezes, o aluno
vai à escola com algum
suporte, como bolsa de
colostomia ou cateter,
e sofre bullying”

Como surgiram as CHs?

No início de 1935, fora inaugurado na França uma escola para crianças inadaptadas – pelas minhas pesquisas, alunos com deficientes, que não se adaptavam muito bem. Em um segundo momento, foi se espalhando na Europa essas instituições, mas para crianças tuberculosas. Pode-se considerar como marco decisório das escolas em hospitais a 2ª Guerra Mundial, por conta do grande número de crianças e adolescentes atingidos, mutilados e impossibilitados. Já nos anos 1970, sobretudo na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos, os serviços de saúde passaram a desenvolver mais estudos nessa área. Hoje, destacam-se sobretudo as realidades de Espanha e França, onde as classes são absolutamente instituídas, todos os hospitais possuem. Na América Latina, que tenho um contato muito grande por fazer parte da Rede Latino Americana e do Caribe Para o Direito à Educação de Crianças e Jovens Hospitalizados ou em Situação de Enfermidade, também existem as CHs. No Brasil, os primeiros registros de atendimentos para os deficientes físicos são da década de 1930, na Santa Casa de São Paulo. Algo mais estruturado surgiu somente nos anos 1950, no Rio de Janeiro, com o Hospital Jesus. Espalhou-se mais nos anos 1980 e 1990. Hoje, as CHs têm recebido impulso maior, sobretudo de movimentos internacionais favoráveis a implantação de uma política de educação inclusiva.

 

O que podemos entender como educação inclusiva?

Quando falamos em educação inclusiva, pensamos em deficientes físicos e sensoriais. Mas todos nós cabemos na educação inclusiva, com nossas diferenças e particularidades. A partir do momento em que o aluno é respeitado em seu ritmo, em sua forma de ser, em sua singularidade, podemos falar nesse termo. Isso é inclusão e uma forma diferente de enxergar o aluno global, que passa em um liquidificador e sai pasteurizado.

 

E como funciona a implantação das classes?

Não há custos para os hospitais. Basta requerer à secretária, que manda o professor. Compete a elas a capacitação e a provisão de recursos financeiros e materiais para os atendimentos. Em São Paulo, temos duas leis que estabelecem as CHs, a 10.685/200, estadual, e a 16.530/2016, municipal. Esta do vereador Aurélio Nomura, sensível à causa. Talvez não seja o que precisamos em sua totalidade, mas temos recursos e material humano, basta o hospital solicitar. De qualquer forma, precisaríamos de leis em nível federal também. Nós estamos garantidos pela Constituição, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e por leis. Então precisamos de um apoio legal mais forte, instituindo em todos os hospitais, ao menos nos públicos, os direitos das crianças hospitalizadas.

 

Além do acesso a esse direito, há em que melhorar?

Na formação do professor, que ainda é básica dentro da área da pedagogia hospitalar. Ainda é muito recente vislumbrar contextos de tratamento de saúde, bem como a criança doente dentro da escola. Precisamos investir nestes cursos. Recebemos, às vezes, nas CHs professores que caem de paraquedas por aqui. Então nós vamos fazendo a formação, com os cursos que são oferecidos aqui. Além disso, precisamos fortalecer políticas públicas, divulgar mais o nosso trabalho, esclarecer para quem é da Saúde que basta solicitar para o estabelecimento das CHs, conscientizar os pais dos direitos de seus filhos, além de promover ações sociais, culturais e acadêmicas que promovam a área.

 

Nesse sentido, como vai a atuação em prol das CHs?

Temos contribuído muito com a classe política, especialmente com o vereador Nomura, incentivando a reflexão sobre o tema. A lei municipal que citamos, por exemplo, instituiu a quarta semana de maio como a Semana Municipal da Conscientização dos Direitos da Criança e do Adolescente ao Atendimento Pedagógico em Hospitais, Ambulatórios e Domicílios. Essa lei surgiu de um projeto que tivemos em um congresso da área, em 2014, para comemorar o Dia da Criança Hospitalizada, que agora virou uma semana. O intuito é sensibilizarmos a população e comemorarmos a data, realizando ações que vão expandido e atingindo diferentes segmentos. Entre 2014 e 2017, realizamos um congresso com apoio da SPDM e da EPM. Neste ano, fizemos em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Com isso, fizemos uma ação com alunos de todos os anos mostrando o direito à educação e mostrando o que eles podem fazer por um colega adoentado. Também trabalhamos, pela primeira vez, com universitários em Pedagogia, mostrando esse campo de trabalho. Foi uma ótima parceria este congresso, em que também contamos com a honrosa presença de José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação paulista de Medicina. Sei que essa aproximação de Saúde e Educação é, para ele, muito valiosa.

 

E no âmbito acadêmico?

Nesse sentido, o pessoal da Enfermagem tem algumas pesquisas de pedagogia no contexto hospitalar. Professores nem tanto. Mas incentivamos muitos nossos alunos do curso de extensão, oferecido pela SPDM, a produzirem um artigo ao final do curso, em nível de TCC. Três pessoas que passaram por ele estão, hoje, fazendo mestrados. Também temos algumas publicações em revistas. Está havendo interesse e conscientização da necessidade de publicação sobre as CHs. Esse é um dos empenhos de nossos cursos. Nos Congressos estão aparecendo cada vez mais trabalhos, também, sempre avaliados por comissões científicas bastante criteriosas.

 

Por fim, como definiria o conceito de Saúde?

Algo muito amplo, que não se restringe apenas à parte física. Evidente que em um momento de primazia, os cuidados físicos têm primazia. Mas a Saúde diz respeito à Saúde Mental, à parte cognitiva, ao lado psíquico e às emoções. O ser humano é muito complexo. Para que esteja saudável, feliz, é necessário que seja contemplado em sua integridade. Acho que aí que entra a importância das equipes multiprofissionais, tanto nos hospitais e ambulatórios, como nas escolas. O hospital sempre é visto como a casa da saúde, mas não é só, basta ver o Hospital São Paulo que é, também, uma universidade. E a escola é sempre vista como um local de ensino e aprendizagem conteudista, o que não é verdade também. Na escola, há as crianças adoecidas, em maior ou menor gravidade. Mesmo a saúde não relacionada a doença está na escola: a mente, a parte física, a cognição. Esses elementos formam um todo. Repito: o ser humano é complexo, mas é muito bonito. E o trabalho com jovens e crianças é um privilégio em nossas vidas.

 

Raio-X

LEA CHUSTER ALBERTONI

FORMAÇÃO - Pedagogia

ESPECIALIDADE - Psicopedagogia, Terapia Familiar e Psicologia Social

ATUAÇÃO

Gestora do Programa de Atendimento Pedagógico e Educacional ao Escolar em Tratamento de Saúde no Hospital São Paulo e professora do departamento de Pediatria da EPM/Unifesp

 

 Entrevista publicada na Revista da APM - edição 702 - agosto 2018