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03/10/2017 - No Outubro Rosa, especialistas falam sobre o cenário brasileiro

Devido à sua importância no diagnóstico precoce do câncer de mama e prevenção de mortes, a especialização no exame se tornou uma área de atuação da Medicina

Guilherme Almeida

Desde que a Fundação Susan G. Komen organizou, em 1990, uma corrida pela cura do câncer de mama - com distribuição de laços rosas aos participantes -, o Outubro Rosa vem se consolidando cada vez mais. Hoje, é uma comemoração popular em todo o mundo, com ações voltadas à prevenção da doença por meio do diagnóstico precoce.

Entretanto, mesmo com quase três décadas de divulgação da importância da prevenção à doença, ainda são encontradas muitas dificuldades para a realização do trabalho. Por isso, ouvimos especialistas em Mamografia, que é uma área de atuação da Medicina e uma das principais ferramentas para o diagnóstico precoce do câncer de mama, sobre o atual cenário brasileiro.

Linei Urban, radiologista e coordenadora da Comissão Nacional de Mamografia (composta pelo Colégio Brasileiro de Radiologia - CBR, Sociedade Brasileira de Mastologia - SBM e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia - Febrasgo), no Brasil existem mais de cinco mil aparelhos para o diagnóstico do câncer de mama em funcionamento.

O problema é que eles se encontram muito mais no Sul e no Sudeste, restringindo o acesso em algumas localidades. “Também existem aparelhos sem manutenção, falta de materiais etc. Temos trabalhos que mostram que a cobertura da mamografia para a faixa etária que necessita dela só chega a 30% das mulheres. Enquanto isso, a Organização Mundial de Saúde recomenda um rastreamento de 70%.”

Para João Bosco Ramos Borges, presidente da SBM – Regional São Paulo, o Sistema Único de Saúde não tem número suficiente de profissionais nem de equipamentos para atender a demanda. “Também não há programa de rastreamento mamográfico organizado, com busca ativa. Muitas mulheres nunca fizeram mamografia e a grande maioria faz de maneira desorganizada”, avalia.

O especialista também considera muito importante a qualidade do exame, que precisa ser monitorado, certificado e vigiado: “mamografia de baixa qualidade é duplo prejuízo, gasto sem benefício”. Em seu entendimento, o poder público e os gestores da saúde suplementar não percebem que a mamografia (e o médico qualificado para isso) são fundamentais no diagnóstico precoce. “Se o gestor não entende que rastrear salva vidas, que pense em custos. Salvar uma vida com diagnóstico precoce custa cinco vezes menos (no mínimo) do que tratar o paciente com a doença avançada.”

Atuação dos especialistas
Linei relata que, para o diagnóstico precoce do câncer de mama, são necessários um aparelho bom, calibrado e com a dose de radiação adequada; um exame bem posicionado no momento da radiografia; e boa interpretação de um médico bem preparado para avaliar. O radiologista é o médico apto a realizar o laudo do exame, bem como os mastologistas e os ginecologistas que possuam título de especialista na área de atuação da Mamografia, concedido em conjunto pelas especialidades em questão.

Regina Maria Volpato Bedone, mastologista a diretora adjunta de Eventos da Associação Paulista de Medicina, explica que a atuação dos mastologistas tem crescido ao longo dos anos. Hoje, os demais especialistas costumam pedir uma segunda avaliação para os mastologistas em casos como nódulo de mamas, para saber se é necessário ou não biopsia, por exemplo. “É importante entender que o câncer de mama é uma doença multifatorial, uma condição sistêmica, então é necessário esse acompanhamento especializado”, considera.

O ginecologista bem preparado funciona como o médico geral da mulher, então ele tem que saber quando solicitar os exames e interpreta-los. Essa é a avaliação de Carlos Alberto Ruiz, ex-presidente da SBM, ginecologista e mastologista do Hospital das Clínicas da FMUSP. “Por exemplo, um nódulo de mama demora de 8 a 10 anos para atingir 1 cm. E ele só é identificado na palpação com 1,5 a 2 cm. Ou seja, a mamografia é necessária em alguns casos para que se saiba o diagnóstico precocemente.”

Futuro
A coordenadora da Comissão Nacional de Mamografia crê que a área ainda tem caminhos para evoluir. Hoje em dia há a tomossíntese, que é uma evolução da mamografia digital. “Ao invés de termos apenas imagem única da mama, coletamos várias posições e reconstruímos a imagem em códigos milimétricos, fazendo uma avaliação mais adequada. Vários trabalhos demonstram que, com isso, detectamos 30% a mais de tumores. Além de reduzir falsos positivos.”

Sobre os aspectos tecnológicos, Ruiz menciona as dificuldades atuais e espera que o desenvolvimento traga opções ainda melhores. “Quanto mais jovem é a paciente e a densidade mamária é maior, a mamografia não enxerga adequadamente. Cerca de 15% das mamografias das mamas mais jovens dão falso negativo. Outros métodos como ressonância ou ultrassom, por exemplo, não enxergam microcalcificações, que são os achados mais frequentes em tumores iniciais. Então, espero que logo surja um exame que traga nível especifico de acuracidade, sem falsos positivos ou negativos que valham a pena”, afirma.

“De qualquer forma, o padrão ouro para o diagnóstico de mulheres a partir dos 40 anos ainda é a mamografia. É importante que tenham consciência disso. Com diagnóstico precoce, o índice de cura é de até 95%. Já o tardio implica em muito mais mutilação, quimioterapia, metástase e sofrimento. Hoje, sabemos que quando bem tratado, há muita vida com qualidade após o câncer de mama”, finaliza o especialista.