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28/06/2018 - Rossana Pulcineli - Mudanças só vêm assim, com trabalho e luta

Rossana Pulcineli é a primeira presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp)

Graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Rossana concluiu mestrado e doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde é professora associada da Disciplina de Ginecologia e Obstetrícia, chefe do Departamento, vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação da especialidade e vice-presidente da Comissão de Pesquisa, além de chefe da Divisão de GO do Hospital Universitário. À Revista da APM, ela faz uma análise da saúde no Brasil, de sua especialidade e da situação da mulher na Medicina.

Como avalia o Sistema Único de Saúde e seu financiamento?

O SUS tem uma proposta muito avançada e é elogiado conceitualmente em todo o mundo. Por um lado, colecionamos diversas conquistas, como ter os maiores programas gratuitos de vacinações, de transplantes de órgãos e de tratamento do HIV de todo o planeta. O Programa de Saúde da Família, o SAMU e outrosorganismos de resgates também são referência internacional. Se o sistema funcionasse como previsto na Constituição Federal e seguindo todas as suas linhas teóricas mestras, proveria aos brasileiros uma das melhores assistências do mundo.Ocorre que o Brasil vive uma eterna desorganização política e estamos sempre à mercê de projetos partidários. Temos de mudar essa ordem das coisas. É imperioso que a Saúde seja tratada como política de Estado em nosso País, para ganhar consistência e avançar. Paramos no meio do caminho e já demonstramos sinais de retrocesso. O subfinanciamento provoca gargalos importantes, como recursos humanos mal remunerados, carência de profissionais de diversas áreas, sucateamento de hospitais e unidades de saúde, falta de medicamentos e insumos. Todos esses, e muitos outros problemas, são reflexo também da gestão inadequada em vários órgãos públicos e da ausência de racionalização dos processos. O resultado é o que vemos, lamentavelmente, em distintos hospitais e postos de saúde: filas nos serviços de emergências e nos ambulatórios, demora para marcar exames e conseguir internações, entre outras dificuldades de acesso.

 

“É imperioso que a Saúde seja tratada como política de Estado em nosso País, para ganhar consistência e avançar”

 

E a situação dos médicos na saúde suplementar?

Os profissionais que atendem planos e seguros saúde enfrentam problemas tão ou mais graves que os do SUS. A começar pela desvalorização por parte das fontes pagadoras. Os honorários da maior parte dos procedimentos são irrisórios e mal cobrem os custos de um consultório. Na Ginecologia e Obstetrícia, por exemplo, um especialista que traz uma criança ao mundo e ainda tem a vida da mãe em suas mãos na hora do parto chega a receber R$ 300,00 pelo trabalho. É ultrajante e desestimulante. Não à toa, temos cada vez menos obstetras em nossa especialidade. Há outros agravantes, como as pressões de algumas empresas para reduzir custos, sem critério algum. Então, a autonomia do médico é desrespeitada por planos que forçam a antecipar altas, a evitar internações, a não solicitar este ou aquele exame, isso sem falar nas glosas recorrentes. São situações inaceitáveis. Desde que assumimos a diretoria da Sogesp, em janeiro deste ano, começamos a trabalhar em uma ampla campanha de valorização do tocoginecologista, que será lançada neste mês de junho. Também está em andamento uma pesquisa para detectar os problemas e as expectativas de nossos pares na saúde pública e privada, que nos oferecerá subsídios para traçar uma estratégia de atuação na luta por melhor remuneração e condições adequadas para o exercício da GO. Mudanças só vêm assim, com trabalho e luta.

Sobre as recentes tentativas de criar planos de saúde “populares”, franquias e coparticipação, qual sua opinião?

Desde a primeira hora, a Sogesp alinhou-se com a Associação Paulista de Medicina, a Febrasgo, outras entidades médicas e órgãos de defesa do consumidor contra as propostas. Um carro, quando abalroado, pode ficar meses encostado, até que se arrume dinheiro para consertá-lo. Bem diferente é um problema com o paciente. Se cair na franquia dos planos, ele não poderá iniciar uma poupança para depois buscar a cura, pois passará por sofrimento, dor, agravamento da doença e risco de morte. É cruel e inaceitável, em especial se pensarmos que os pacientes de planos já pagam mensalidades altíssimas, sempre com reajustes bem maiores do que a inflação. A franquia também ameaça a boa prática médica, pois poderá inviabilizar tratamentos e levar alguns profissionais a não usarem certas terapias mais avançadas para não estourar a cota do paciente e garantir, ao menos, a continuidade terapêutica.

Você é a primeira mulher a assumir a presidência da Sogesp. Qual a importância disso?

É algo bastante significativo, porque o número de associadas é maior do que o de associados. Também entre os profissionais médicos, as mulheres são maioria. É importante ocuparmos espaço e posições na sociedade, são sempre oportunidades de demonstrar nossa competência. Daí minha responsabilidade em realizar uma gestão para todos os associados, com qualidade e participação. Ao término de nossa administração, o que mais desejo é que os ginecologistas e obstetras tenham orgulho de ser Sogesp.

Quais as prioridades da sua gestão na entidade?

A prioridade número um é a valorização profissional. O ginecologista e obstetra merece e precisa ter remuneração justa, condições adequadas para a assistência à mulher e reconhecimento do trabalho por gestores e pelas pacientes. Temos ainda grande preocupação com as Regionais, que nos últimos anos ficaram engessadas. Cada uma receberá incentivo para preparar e colocar em prática planejamentos estratégicos próprios. Também já estamos criando diversas ferramentas para valorizar e atrair o jovem médico para a Sogesp, e outras para que a médica tenha cada vez mais voz, de forma a acabar com as desigualdades entre gêneros. No campo científico, aperfeiçoamos os processos do Congresso Paulista, teremos cursos teóricos e práticos que venham agregar real valor à prática clínica diária e trabalharemos para oferecer ao associado atividades sem custo adicional, realizadas de acordo com as necessidades de cada região.

 

“Ganhamos espaço, mas a desigualdade de gêneros ainda tem de ser combatida por toda a sociedade”

O que considera os maiores desafios da mulher na Medicina nos dias de hoje?

O reconhecimento à nossa competência tem crescido a cada dia, porém, são enormes os desafios que nos restam para poder falar que, de fato, chegamos à igualdade de oportunidades. Na Medicina, desde 2009, o número de registros de mulheres nos Conselhos tem sido maior do que os dos homens médicos. Na GO, já faz tempo que somos em maior número, assim como em outras áreas de suma relevância aos cuidados do ser humano. Ganhamos espaço, mas o desafio vai bem além, não se resumindo somente às profissionais de Medicina. Dados do Ministério do Trabalho, com base em 2016, apontam que, em funções semelhantes, as brasileiras recebem 84% do salário dos homens. A desigualdade de gêneros tem de ser combatida por toda a sociedade. Neste momento, por exemplo, é essencial termos ações efetivas para coibir o assédio e a violência contra a mulher no ambiente de trabalho, entre outros pontos, além de lutar por seis meses de licença maternidade para todas as médicas, a exemplo do que já foi conquistado para servidoras públicas.

 

ROSSANA PULCINELI VIEIRA FRANCISCO
FORMAÇÃO PUC-Campinas
ESPECIALIDADE Ginecologia e Obstetrícia
ATUAÇÃO Presidente da Sogesp, professora associada e vice-presidente da Comissão de Pesquisa da FMUSP

Entrevista publicada na Revista da APM edição 700 - junho 2018