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05/09/2018 - Voluntariado: APM faz doação para Centro de Referência para Refugiados

Como forma de contribuir com a causa humanitária de refugiados, no dia 5 de setembro, a Associação Paulista de Medicina doou cerca de 500 bonecas abayomis - confeccionadas por colaboradores voluntários - para a Caritas Arquidiocesana de São Paulo.

“Quero agradecer o empenho de vocês, que participaram da oficina de confecção das bonecas. Mais do que isso, a nossa ideia primordial é sempre sensibilizar, fazer com que as pessoas se interessem pelo tema do refúgio”, afirma a assistente social do Centro de Referência para Refugiados da Caritas, Cristina Morelli.

“Enquanto sociedade, temos a obrigação de olharmos para os problemas que existem à nossa volta, não podemos achar que não fazemos parte disso. É uma visão muito absurda e egoísta quando alguns brasileiros dizem que refugiados agravam a nossa situação econômica. O nosso País é enorme e tem espaço para todo mundo. Os números revelam que temos menos imigrantes que outros países bem menores”, destaca a diretora de Responsabilidade Social da APM, Evangelina de Araujo Vormittag.

As bonecas serão vendidas na Caritas ou em eventos que a entidade promove ou é convidada a participar. O recurso obtido será revertido principalmente para a locomoção dos assistidos. “A maioria não possui o mínimo para o transporte público, seja para ir à Polícia Federal retirar documentos, ao curso de língua portuguesa ou profissionalizante, ao médico ou a uma entrevista de trabalho. O transporte em São Paulo é muito caro e o pouco que arrecadamos é para essa finalidade”, explica Cristina.

As abayomis foram produzidas através de retalhos doados pelos próprios funcionários da APM, sendo confeccionadas apenas com cortes e nós, sem a necessidade de costura ou cola.  O termo de origem iorubá, que significa encontro precioso, remonta ao período da escravização da população negra. Durante as viagens a bordo dos tumbeiros, as mulheres confeccionavam amuletos com pedaços de suas saias para acalmar e trazer alegria para as crianças.

Desde abril deste ano, a Associação tem colaborado com a causa – tema das ações de voluntariado de 2018 -  com a doação alimentos e brinquedos para a instituição. Já foram doados 166 quilos de produtos alimentícios, arrecadados no Chá com Cinema, além de 273 brinquedos captados com os parceiros comerciais da Associação.

A experiência pioneira da APM em produzir e doar as bonecas, segundo representantes da Caritas, motivou outros grupos sociais a também proporem iniciativas para contribuir com a causa do imigrante em situação de refúgio. “No próximo ano, a nossa proposta é que mais colaboradores terceirizados e funcionários da APM participem do Dia do Voluntariado, como parte da inerente cultura da entidade”, reforça Evangelina.

 

Refugiados

No momento da doação, a Associação também recebeu a visita inesperada da congolesa Prudence Kalambay, ativista pelos Direitos Humanos que está no Brasil desde 2008. Há mais de 20 anos, a República Democrática do Congo enfrenta uma guerra civil entre opositores e apoiadores do regime local. Além do governo ditatorial, existe forte desaceleração econômica.

Em seu país, Prudence chegou a vencer um concurso de miss, e naquele mesmo período, aproveitou o reconhecimento para montar uma organização dedicada às mulheres que eram abandonadas com os filhos. Entretanto, o projeto foi considerado subversivo pelo governo e ela foi obrigada a buscar refúgio em outro país.

“Quando você fala qualquer coisa contra o governo, é perseguido, a solução é fugir. Aqui no Brasil, tive a oportunidade denunciar o que está acontecendo lá. Estamos muito felizes de saber que muitos brasileiros hoje entendem o que acontece na República Democrática do Congo, e em outros países da África, de maneira geral”, reitera.

Além da visibilidade e apoio dos brasileiros, a militante já foi convidada a participar de diversos encontros, como o projeto Empoderando Refugiadas, idealizado pelo grupo de Direitos Humanos e Trabalho da Rede Brasileira do Pacto Global. “A Caritas me ajudou a entender que eu tenho direitos e que posso praticar meus sonhos. Como mulher refugiada, comecei a levantar minha autoestima e acreditei. Nós, refugiados no Brasil, não estamos aqui para roubar uma vaga de creche na escola ou empregos, estamos aqui para somar e fazer crescer esse país lindo. O Brasil hoje é nossa segunda casa”, agradece. Além de uma filha congolesa, ela tem mais quatro filhos brasileiros.

De acordo com a Polícia Federal, há 208 milhões de pessoas vivendo no Brasil, sendo que 2% (4,1 milhões) são imigrantes. Fora do País, há 5 milhões de brasileiros. “Ou seja, somos muito mais imigrantes fora do que recebemos aqui. Para termos uma comparação geográfica desse número, a Turquia -  um país menor que o estado do Mato Grosso - que não é economicamente favorecido, recebeu até 2017 quase 4 milhões de refugiados”, destaca Cristina.

Dentro do universo de imigrantes, entre os que chegaram e os que estão aguardando o pedido de refúgio, não existem mais de 90 mil pessoas. “É um direito humano migrar, do mesmo jeito que vamos a outro país para estudar, fazer turismo, trabalhar, entre outras atividades, e gostamos de ser bem-recebidos. Temos de tratar de forma semelhante os imigrantes em situação de refúgio, porque acima de tudo são seres humanos”, finaliza a assistente social.

 

 Fotos: Osmar Bustos

 

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