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10/09/2019 - Warm Up São Paulo debate Telemedicina nos sistemas de Saúde e na relação médico-paciente

Para compreender quais os benefícios e os desafios que a assistência a distância mediada por tecnologia pode trazer para os sistemas de Saúde, especialistas compartilharam vivências e expectativas sobre o tema, no Warm Up São Paulo, no último dia 30 de agosto. O evento realizado na sede da Associação Paulista de Medicina foi o primeiro aquecimento ao 2º Global Summit Telemedicine & Digital Health, que ocorre de 2 a 5 de junho de 2020 no Transamerica Expo Center.

“Temos de entender que o mundo está mudando. A Telemedicina nunca vai substituir o contato. No entanto, se a utilizarmos de forma adequada, podemos juntar esse conjunto de ferramentas para interagir com o paciente”, reforça o diretor da holding Dal Ben Home Care & Senior Care da Clínica Althea, Rogério Rabelo.

Segundo ele, os questionamentos contrários ou favoráveis permitem incluir a qualidade da relação presencial entre médico e paciente. “Muitas vezes, o médico pressionado por muitos motivos nem levanta o rosto do papel para olhar o assistido. Ou seja, o contato entre médico e paciente caminhou para o lado técnico, perdendo-se a empatia. Perdemos também aquela ideia do profissional da família, como no interior. Talvez, com as discussões da Telemedicina, podemos recuperar um pouco desse contato.”

“A tecnologia de comunicação exponencia o que você tem de bom ou de ruim. Se você é um bom médico no mundo físico, você será um bom médico no mundo digital. A vantagem do mundo digital é que o HD não apaga, tudo o que fizer de errado vai ser achado mais rápido, isso protege o paciente”, continua o gerente Médico de Telemedicina do Hospital Albert Einstein, Eduardo Cordioli.

“Sempre bato nesta tecla que a Telemedicina não é a resolução de todos os problemas de Saúde do País nem do mundo. Ela ajuda bastante no que pode. Dentro desse contexto de interação, a empatia e o acolhimento não são variáveis físicas, são variáveis emocionais que o indivíduo pode ou não se sentir, estando ou não presencialmente”, reitera o diretor executivo do Siate, José Luciano.

Qualificação
A ideia de um tipo de treinamento específico para Telemedicina, segundo ele, também orienta no sentido da empatia e acolhimento. “O grande valor na hora da avaliação a distância é de saber escutar mais e a hora exata de colocar a sua palavra. Isso faz com que a percepção de qualidade, acolhimento e cuidado do outro lado seja muito elevado.”

Nesse sentido, o diretor médico e gerente geral da Teladoc, Caio Soares, defende que, independentemente da Medicina praticada presencial ou a distância, o ato médico é primordial. O risco de um erro, de uma falha na comunicação, é exatamente igual. “Qualificação médica é a melhor ferramenta de proteção do paciente. Se estamos discutindo Telemedicina, modalidade de consulta médica não presencial, as escolas médicas têm que estar preparadas para ensinar como fazer isso de maneira adequada”.

Nessa linha, o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Chao Lung Wen argumenta que é preciso formular as técnicas de observação e investigação por meio da telepropedêutica com qualidade. “Telemedicina não é aplicativo de videochamada, computador ou câmera, é um processo integrado de cuidados. Os riscos são a banalização e a superficialidade de achar que tudo é simples e esquecer que estamos lidando com pessoas que também são complexas. Por isso a educação é fundamental.”

“Se tivermos uma regulamentação adequada, minimizamos o efeito dos ‘cowboys’ (pessoas de má índole) na Telemedicina. Metodologia e regulamentação passam por uma redução de risco significativo e a participação da sociedade médica neste processo é fundamental”, defende o CEO e fundador da Neomed, Gustavo Kuster.

Redução de custos
Redução de custos e de filas e maior resolubilidade dos casos são algumas das melhorias, segundo estudiosos. “Tira gargalos, pois hoje os sistemas estão estrangulados porque os utilizamos mal. Buscamos assistência primária em prontos-socorros, subvertendo as estruturas e esperamos que funcionem a nosso favor, mas não vai dar certo”, afirma Soares.

De acordo com ele, a utilização de Telemedicina para atenção primária possibilita unir diminuição de risco com baixo custo, trazendo resultados satisfatórios na qualidade de vida das pessoas. “Fazemos hoje 25 mil teletriagens mensais, 52% dessas pessoas ficam em casa e seguem as orientações. Sem essas instruções, 95% dos casos estariam em prontos-socorros, mais uma vez estrangulando e tornando ineficientes os sistemas.”

Já Rogério Rabelo ressalta que as plataformas tecnológicas ampliam o acesso. “Faço um paralelo com o que está acontecendo com a China e a Índia, que não tinham sistemas de Saúde nem público nem privado. Montaram camadas de atendimento primário em zonas rurais, um modelo que no Brasil se inverteu ao implantarmos hospitais de alta complexidade em cidades de 10 mil habitantes, por exemplo. Na Inglaterra, havia um gargalo com número ineficiente de médicos de família para atender a população, e a teleconsulta resolveu a questão com qualidade e quantidade de profissionais”, compara.

Cordioli divide a Telemedicina academicamente em duas grandes linhas: assistencial e operacional. Com foco no Sistema Único de Saúde, ele destaca que o atendimento a distância permite melhor organização e sustentabilidade à estrutura. “Pacientes com uma lesão dermatológica, acne, micose ou melanoma entram na mesa fila. A teledermatologia contribui para separar e encaminhar pessoas com lesão maligna para a biópsia mais rápido. Isso não tira o emprego do dermatologista, só coloca o assistido com caso grave para chegar ao especialista primeiro”, exemplifica.

O gerente do Einstein também menciona o serviço de TeleUTI, no qual o profissional de Saúde plantonista passa nos leitos com um médico distância. “Não só observamos redução de mortalidade, mas principalmente na melhora no giro do leito. Em hospitais que abordamos, houve uma redução ainda do tempo de permanência na unidade intensiva de 20 para 10 dias, criando-se mais vagas.”

“A Telemedicina pode beneficiar, melhorar a eficiência da Saúde, reduzir custos e oferecer melhor experiência para o paciente. Acredito que os próximos passos vão envolver a inteligência artificial para o parecer de alguns exames, reduzir custos e melhorar a eficiência de maneira geral dos sistemas”, resume Kuster.

Dificuldades
O Programa Telessaúde Brasil Redes, para a atenção básica no sistema público, teve início em 2007, com um projeto piloto. A iniciativa visa integrar ensino – conectada a diversas universidades - e serviços em pontos estratégicos, com UBSs, por meio de teleassistência e tele-educação.

“Hoje, temos basicamente 23 estados participando. No entanto, a maioria dessas conexões não tem impacto grandioso na saúde do indivíduo na ponta. São apenas laudos de exames, não que não sejam importantes, mas a interação com especialistas não acontece em razão da ausência da Telemedicina”, critica José Luciano.

“Funciona como um serviço, e não como a logística da cadeia de Saúde. Se queremos fazer uma boa Telemedicina para o sistema público, antes temos de aprender o conceito da trilha de cuidados e inserir o atendimento a distância como um sistema de atalho e eficiência. Estamos apenas provendo um serviço, sem sua organização”, concorda Wen.

“A Telemedicina, além de ser um apoio intrahospitalar, envolvendo médicos e profissionais da Saúde, possibilita aumentar a capacidade funcional de uma unidade hospitalar. Em um hospital com mil leitos, posso acrescentar mais 200 sem depender de infraestrutura e recursos”, pontua o professor da FMUSP. Em outro tópico, acredita que o investimento deve ser pautado em saúde sustentável. “Se queremos aumentar a eficiência do SUS e dos planos de saúde, devemos focar em gestão de saúde e estilo de vida. O futuro inclusive da Telemedicina está em saúde conectada, residências inteligentes e, assim, recriamos um novo patamar.”

Já no sistema suplementar, Luciano avalia que houve ganhos em eficiência, com ressalva de que nem sempre a implantação do modelo significa redução de custo, é apenas um meio estratégico para isso. “No início, terá de haver investimento em equipamento e treinamento de pessoal que pode ser recuperado a partir do momento que você tem gestão sobre isso. Não acredite que temos apenas que colocar aparelhos de assistência a distância, precisamos de profissionais capacitados para essa potencialidade e eficiência. Basicamente, a operadora consegue economizar em médio e longo prazos.”

O encontro foi moderado por Antonio Carlos Endrigo, diretor de Tecnologia da Informação da APM e presidente da Comissão Organizadora do Global Summit Telemedicine & Digital Health, e por Jefferson Gomes Fernandes, neurologista e presidente do Conselho Curador do GS.

Fotos: BBustos Fotografia

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